DO BLOG DO RICARDO KOTSCHO (07/07/2009)
MAURA MARQUES: A MULHER QUE MORREU DUAS VEZES FÁTIMA SOUZA Irreverente, alegre, divertida, louca pela vida, Maura Marques sentiu uma dor de cabeça muito forte, a ponte de virar o estômago. O dia era primeiro de julho de 2009. Ela deitou um pouco e, como a dor não passava, o marido, Rui, decidiu levá-la ao pronto socorro mais próximo. Apesar da dor intensa, Maura foi conversando e brincando durante o trajeto. No tal do “PS”, uma destas coisas públicas, confessaram os médicos que não tinham como dar o tratamento adequado porque o caso era de aneurisma cerebral. Foi então a Maura transferida para o Hospital do Mandaqui, na Zona Oeste de São Paulo, outra destas coisas públicas. Levada para a emergência do Pronto Socorro do Hospital, logo ao dar entrada, Maura desfaleceu e foi entubada. Era grave o seu caso e os filhos e as filhas e o querido marido de tantos anos começaram a ligar para os amigos. Já era madrugada quando eles foram descansar um pouco, voltando ao Mandaqui (não deixaram ninguém da família ficar ao lado dela) para a visita, as 11 e meia da manhã. A amiga Sonia, também advogada e “unha e carne” de Maura Marques foi junto com Rui para vê-la. Embora a sua grande amiga estivesse sedada e entubada, Sonia conversou com ela, lembrou-a que era ela uma guerreira e pediu que – como fez a vida inteira – continuasse a lutar. Dos olhos de Maura brotaram lágrimas e Sonia apertou-lhe a mão, sabendo que ela não podia falar, mas ouvia. Quase uma da tarde, fim de visita. De jaleco branco o médico de plantão, que se identifica apenas como Valter (será que nenhum médico de hospitais públicos tem sobrenome???), não faz cerimônia e nem tem gentileza para dizer à melhor amiga de Maura e ao seu marido de 30 anos de vida em comum que ela teve “morte cerebral”. Rui, que tem problemas cardíacos e safena no coração, fica tonto e, incrédulo, pergunta: “ O senhor, doutor, está me dizendo que minha mulher está morta?!” - Sim, está morta. Não há retorno. Daqui a pouco uma equipe de captação de órgãos vai procurá-los para que vocês doem os órgãos dela… Sonia dá um “toque” para que o doutor se toque e respeite a dor de Rui e espere um pouco para pedir os órgãos de Maura. Sim, não devemos ser egoístas, devemos deixar que outras pessoas vivam com o que não vamos mais precisar, mas… será que o doutor poderia esperar um pouco e ter um bocadinho de sensibilidade em tal momento? Aos prantos, o marido Rui sente o chão ceder aos seus pés. O coração cansado e triste fraqueja ainda mais e ele precisa de atendimento médico. Depois, desolado, vai para casa e de novo liga para amigos e parentes, desta vez para dar a notícia pior: Maura Marques, a mãe, esposa, advogada profissional, mulher de fibra, alegre e irreverente está com morte cerebral e não tem volta. Os preparativos para o velório e a cremação na Vila Alpina (desejo de Maura) começam a ser providenciados. Em conversa franca e solidária, a família decide doar os órgãos, conforme pediu o doutor. Já são mais de dez da noite e eles voltam ao coisa pública do Mandaqui levando roupas para trocar a Maura e informar que a família decidiu doar o que dela pode ajudar outras pessoas. O doutor Valter não está mais lá, agora é o doutor João o responsável pelo plantão noturno. Ao conversar com a família, ele se espanta e diz: - Acabei de fazer um teste e a Maura respondeu aos estímulos, prova de que não está em morte cerebral. O doutor Valter se enganou porque ela estava sedada quando ele deu o diagnóstico. O caso dela é grave mas morte cerebral não há. Rui, Ruizinho (o filho mais novo do casal) e a filha “Li” se abraçam e riem emocionados. Maura não está morta! Não teve morte cerebral! O doutor Valter, segundo o doutor João, se enganou! Como Maura continua na emergência do PS (embora, pela gravidade do caso, a família tinha pedido e insistido para que ela fosse removida para a UTI) não permitem que alguém fique com ela, ao lado dela, durante o resto da noite. Na emergência deste PS, não pode ficar ninguém com o paciente. Todos se irritam, mas… como ficar zangado com a maravilhosa notícia de que Maura Marques não está com morte cerebral, que foi engano do tal médico Valter da tal coisa pública? Vai embora então a família esperançosa, usando todos os telefones celulares no caminho para avisar amigos e parentes de que Maura está viva e que não haverá mais velório e nem crematório. Exaustos, todos dormem, felizes e cheios de esperança. Quando amanhece de novo já é sexta feira, dia 3 de julho. Rui o marido, Sonia, a grande amiga, as filhas, os filhos, outros parentes, amigos e amigas, estão na porta do Mandaqui para visitar a querida Maura Marques. É só das 11 meia ao meio dia e meia… Uma horinha que será curta, com certeza, porque tem gente demais e só pode entrar uma pessoa por vez. Vem, no entanto, a notícia que ninguém queria ouvir: Maura Marques está morta outra vez! Aconteceu às 08.55 da fria sexta feira cheia de ventania. Maura está morta há cerca de duas horas ou mais. Agora, de verdade, cerebral e fisicamente. É uma enfermeira quem dá a notícia ao marido Rui, que, pela segunda vez, é avisado que a esposa está morta. De novo ele rodopia, titumbeia, passa mal e precisa ser medicado. A firme e eterna amiga Sonia ampara Rui e chora com ele. Quando os celulares começam a tocar, para saber como Maura está, a resposta é a mesma para todos: “Agora Maura morreu mesmo!” Pela segunda vez. Velório e crematório agora irão acontecer de verdade. A família e os amigos, sem acreditar, pedem para falar com o médico de plantão para ter melhores explicações. São informados de que agora são duas médicas, duas doutoras e que elas vão atendê-los brevemente. Mas o tempo passa, a família cobra e a nova informação é a de que as doutoras foram almoçar. Passa das duas e meia da tarde quando a filha Li, cansada de esperar pelo fim do interminável almoço e da falta de informação, decide entrar no hospital (até então todos esperavam do lado de fora) e procurar as doutoras. Depois de mais muita espera as duas moças, médicas, de avental branco, contam que o caso era grave, que o fato de não terem levado a Maura para a UTI não foi só porque não tinha vaga, mas que não era necessário devido à gravidade e quase irreversibilidade do caso. E quanto ao diagnóstico “precoce” e precário do tal doutor Valter, que assegurou ao meio dia do dia 2, que ela estava com morte cerebral, informação negada, dez horas depois pelo doutor João? - Ele errou e, se eu puder pedir desculpas por ele…, diz uma das doutoras. - E quanto à doação de órgãos que ele foi logo pedindo? - Errou de novo, diz a doutora, que ainda promete conversar com o tal doutor, dizendo que ele não pode e nem tem autorização para pedir doação de órgãos à família porque só ela pode fazer isso, por ser a responsável pelas equipes de captação de órgãos. Portanto, só ela seria autorizada a pedir os órgãos aos familiares de quem está em morte cerebral, se é que o paciente está mesmo neste estágio. A família da batalhadora Maura Marques questiona: ao meio dia da quinta feira, quando o doutor Valter achou que ela estava com morte cerebral, certamente ele passou esta informação aos enfermeiros de plantão…. “achando” que Maura estava “praticamente” morta, alguém continuou cuidando dela? A “desentubaram” ou ela continuou com os aparelhos? Foram ministrados medicamentos durante este período ou “achando” que ela estava semi-morta ninguém mais se importou com ela? Desencanaram de levá-la à UTI já que ela estava quase-morta? Era necessário levá-la para a UTI? Ajudaria? Conta o filho Ruizinho que quando esteve lá à noite (na quinta, 10 horas depois do doutor Valter informar que ele estava com morte cerebral e minutos após saber pelo doutor João que ela não estava porque tinha respondido a estímulos), a mãe estava com os cabelos cheio de sangue. O travesseiro em que ela repousava também estava todo ensangüentado e ninguém o trocou. Também havia urina na cama, mas o lençol não foi trocado. Afinal, todos pensavam – com a anuência do doutor Valter – que ela estava quase morta, praticamente morta. O doutor João disse que não, então trocaram-se lençóis e fronha. Na madrugada, já de sexta, dia fatal, Maura Marques realmente entrou em morte cerebral e quase batendo as nove da manhã nos ponteiros do relógio, Maurinha morreu de verdade, pela segunda e última vez, deixando saudades e dúvidas. Conta, entre lágrimas, a grande amiga Sonia, que Maura, em uma audiência, depois de ouvir das testemunhas de acusação o que ela considerou “mentiras deslavadas”, olhou para a juíza e disse: - Porra, excelência!… tá na cara que eles estão mentindo! Era assim a Maura Marques, advogada, mãe, esposa, amiga, gente, pessoa da melhor qualidade: irreverente, competente, alegre, feliz, de bem com a vida, autêntica e como ela mesma dizia: “uma mulher do caralho!” - Porra doutor!… tá na cara que o senhor se enganou, diria ela, se pudesse, ao tal médico Valter do Hospital do Mandaqui, a tal coisa pública. http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/2009/07/07/fatima-souza-as-duas-mortes-de-maura-marques/
Escrito por LBeraldo às 13h43
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Caro Ricardo. Lendo o seu blog fiquei sabendo da história escrita pela Fátima e da morte de Maura Marques. Eu conheci a advogada Maura Marques quando cobri toda a história envolvendo o sequestro da filha de Silvio Santos, o sequestro do próprio Silvio, a prisão dos sequestradores e a morte do sequestrador Fernando Dutra Pinto no Centro de Detenção Provisório do Belém. Fernando para quem não se lembra fugiu com o dinheiro do pagamento do resgate e foi cercado num flat de Alphaville por policiais civis de duas delegacias. Os policiais não se conheciam e trocaram tiros entre si. Dois morreram. Na ocasião a informação foi que Fernando tinha praticado as mortas mnas soube-se depois que os policiais tinham trocado tiros na disputa do dinheiro enquanto Fernando fugia entre duas paredes na encosta do prédio.
Bem, Fernando com medo de ser morto pelos policiais foi à casa de Silvio Santos na manhã do dia seguinte, pulou o muro e fez Silvio refém até se entregar horas depois para o secretário da Segurança da época, Marcus Petrelluzzi e o governador Geraldo Alckmin. Fernando acabou morrendo na cadeia, segundo os médicos da prisão, de parada cárdio respitarória. Maura Marques contratada pela família do rapaz duvidou. Acreditava que ele fora envenenado na prisão. Ficou por isso mesmo. A morte dos policiais cuja apuração foi arquivada. E a morte de Fernando também arquivada. Enfim, Maura era uma excelente advogada. Uma pena! Quanto ao médico. Bem… a gente sabe. Tem médico e médico….. E o Conselho Regional de Medicina continua dormindo.
abração