RABULARUM - espaço dos rábulas inconformados


DO BLOG DO NOBLAT

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa -
8.5.2009| 16h12m

Vaidade

Se há uma organização respeitada internacionalmente, é a UNESCO. Seu principal objetivo é reduzir o analfabetismo no mundo. Para isso a UNESCO financia a formação de professores, uma de suas atividades mais antigas, e cria escolas em regiões de refugiados.

Pois bem, um brasileiro, o engenheiro e pesquisador Márcio Barbosa, atual diretor-adjunto da instituição, foi lançado candidato a diretor-geral pelo atual ocupante do cargo, o japonês Koichiro Matsuura, e já contava com mais de 20 votos para ser eleito. Ex-diretor do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o dr. Barbosa tem a comunidade científica internacional a seu favor, assim como vários países que já se posicionaram contra a decisão do Brasil. País que precisa da UNESCO assim como precisa de água e oxigênio, para ver se erradica de vez o analfabetismo, esse câncer.

E qual é a decisão brasileira? O Itamaraty, na pessoa de um de seus chanceleres, o Embaixador Celso Amorim, confirmou que o Brasil apoiará a eleição de um egipcio! Sim, um senhor Farouk Hosni. Devemos algum favor ao senhor Hosni? Não que se saiba. Ele vai defender alguma bandeira brasileira em especial? Não que se saiba. Não que isso fosse um motivo correto e digno de nosso país. Mas, pelo menos, era uma explicação.

Você leram o porquê da pateguice? É simples: apoiando um país árabe estaremos fortalecendo relações com o mundo árabe, permitindo que o Brasil participe efetivamente no processo de paz no Oriente Médio e também teremos os votos dos países daquela região para a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

Isso para mim se chama vaidade. Como objetivo principal, não pode ter outro nome. Vaidade. Eles votam no senhor Hosni e recebem do Egito, importante país da região, a garantia de que o Brasil será chamado para mediar o confronto no Oriente Médio. E o Brasil, na pessoa de sua Excelência Excelentíssima, passa a ser O Cara Internacional, a Face do Mundo, o Líder entre as Nações.

Nada contra. Sonhos são sonhos. Mas creio que a tríade do Itamaraty deveria ter aconselhado ao chefe que fosse no ano seguinte ao de sua posse a Israel. É o único país, ali naquele caldeirão do ódio, que não recebeu a magnânima visita...

Mediador? O Brasil? Como, se suas lealdades estão com o outro lado?

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/



Escrito por LBeraldo às 20h11
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DO BLOG DO REINALDO AZEVEDO

LULA: A NOVA TRADIÇÃO

Reinaldo Azevedo

O ciclo de escândalos do Congresso parece que ainda não terminou, e o foco agora se desloca, uma vez mais, para o Senado. E assim caminhamos, ora numa concha, ora na outra, mas sempre com o Legislativo à beira da desmoralização, enquanto o Executivo governa como quer. Quem retratou bem o espírito do tempo, como não poderia deixar de ser, foi ele, “O Cara”, o Apedeuta da Silva.

Resumiu a onda de críticas de que vem sendo alvo o Congresso como “hipocrisia”. E disse que assim se faz há mais de 40 anos. E admitiu que deu passagens para sindicalistas quando era deputado. Nem era necessário tal rasgo de sinceridade tão pretérita. Teria bastado ser sincero no presente: dá um avião inteiro de presente para um filho levar os amigos para o Palácio — coisa que Maria Victoria Benevides (aquela que fica nervosa quando lê a palavra “ditabranda”) julgou estar fora do alcance da Comissão de Ética Pública, que ela presidia — e vê a empresa do outro rebento receber uma injeção de R$ 10 milhões de uma concessionária de serviço público, de que o BNDES é sócio.

Uma geração — na verdade, duas — de sociólogos das universidades brasileiras se perdeu tentando explicar a “novidade” que o PT representaria na política brasileira. Lula foi mais sintético e exato do que todos eles — sejamos francos: ele nunca foi com a cara dos intelectuais e sempre os desprezou solenemente. No mais das vezes, fez um bem a si mesmo e ao país, diga-se.

Aquele discurso ideológico que tanto encantava os doutores do radicalismo, Lula o definiu como “bravata”. O discurso “denuncista”, que fez do PT suposto porta-voz da “ética na política”, tornou-se agora “hipocrisia”. O que mudou de um tempo para o outro? Simples: Lula passou a ser beneficiário dos usos e costumes aos quais supostamente se opunha. Mas também inaugurou a sua própria tradição de desmandos. Por razões que jamais suspeitaram, os talebans uspianos estava certos: o PT realmente inovou.

Ah, quantos tratados se escreveram e ainda se escrevem nas universidades brasileiras demonstrando que a “direita” e os “conservadores” tornaram “naturais” as diferenças “sociais”. Essa suposta “naturalização” da desigualdade seria um dos truques mais visíveis da Dona Zelite para conservar o poder. A patronesse dessa acusação, entre nós, é Marilena Chaui, mas a fala está em toda parte — no jornalismo, então, é mais freqüente do que errar a conjugação do verbo “ver” no futuro do subjuntivo. Lula, o “intelectual orgânico” — e reciclável — de sua classe não agiu como as antigas elites, não. Ele “naturalizou” a lambança e, por extensão, a corrupção. Pronto! Agora é traço do nosso caráter. Para Lula — o homem que viria mudar “tudo isso que está aí” —, a lambança no Congresso (e no Brasil) sempre foi e sempre será assim.

Muitos criticaram a fala presidencial. Mas, com efeito, nem todos criticam o lulo-petismo da mesma forma. Remanescentes ou herdeiros de certo pensamento de esquerda, sobretudo no jornalismo — eu disse “pensamento”; tirem o PSOL daqui, por favor —, pretendem que este Lula que aí está representa uma espécie de traição ou de variação teratológica do pensamento “progressista” — nem me perguntem o que eles acham que o Apedeuta deveria estar fazendo para não ser, então, um traidor. Lula teria, em suma, se acomodado ao velho patrimonialismo.

A acomodação aconteceu, claro. Mas é injusto não reconhecer que ele inovou a tradição e encarna, também, uma ruptura. De fato, expressões daquela tal “Zelite” continuam a capturar o estado, mas a mediação que importa é outra. Se, no velho modelo, os intermediários da transferência do público para o privado eram os políticos da “burguesia” ou da classe média, os novos mascates que negociam a coisa pública vêm dos sindicatos e das corporações. De fato, reformar a sociedade naquele velho modelo não era tarefa fácil. Na sociedade estamental-petista, a tarefa se mostra quase impossível. Porque esse modelo lulo-petista aniquilou também a crítica.

A imprensa é um bom exemplo de rendição — com as exceções de sempre. De fato, há certa fúria seletiva com o Legislativo (o “Velho Brasil) na exata medida em que há condescendência com o Executivo (o novo Brasil de Lula). A severidade, num caso, não é necessariamente evidência de severidade com a coisa pública. Imaginem um governo tucano ou democrata que retomasse um licitação da década de 80 para tocar Angra 3. E imaginem o dono da construtora como o maior financiador individual da campanha do presidente. Haveria um escarcéu. Seria um pandemônio. Por aqui, tudo está sendo encarado com, lá vai a palavra, “naturalidade”.

Lula inovou: ele funda uma nova dinastia patrimonialista: a sindical. E é ela que está no centro do poder agora — daí eu me incomodar com essa tese de que o Apedeuta da Silva apenas reciclou o antigo. Ele representa, de fato, uma inovação. Os velhos atores, como vocês notam, são apenas base de apoio do lulismo e nem mesmo ambicionam um vôo próprio. Lula inaugura uma tradição. E esse novo patrimonialismo, que permite à máquina sindical assenhorear-se do que é público e tratá-lo como coisa privada, conta com a simpatia de amplos setores da imprensa e do pensamento no Brasil.
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/


Escrito por LBeraldo às 13h48
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DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (03/05/2009)

CLÓVIS ROSSI

A louvação da picaretagem

SÃO PAULO - É indecente e aética a defesa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz do uso de passagens aéreas pelos deputados. Defender privilégios é sempre indecente e aético. E as passagens aéreas são apenas um dos elementos que compõem o elenco de privilégios dos pais da pátria. O fato de terem, nesta semana, vedado a transferência dos bilhetes para parentes, amigos e apaniguados é apenas tirar o bode da sala. Ou eliminar um abuso com o privilégio, mas não o privilégio.
Afinal, toda pessoa, física ou jurídica, que tenha assuntos a tratar em Brasília paga a passagem do próprio bolso. Congressistas pagam com o meu, o seu, o nosso bolso -e o presidente bate palmas, até porque não tem autoridade moral para criticar, porque confessa ter usado e abusado de idêntico privilégio, mesmo no tempo em que achava que a grande maioria do Congresso era formada por "picaretas".
Indecente e aética, a defesa que Lula faz do privilégio só não é surpreendente. É prima-irmã da que fez durante o escândalo do mensalão. "Todo mundo faz", afirmou, então, como agora. E o que é que "todo mundo faz"? É caixa-dois, o único crime confessado pela turma. E o que é caixa-dois? É "coisa de bandido", na ilustrada opinião de Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça de Lula.
Um presidente que dá de ombros para a prática por seus próprios correligionários de "coisa de bandido" não é exatamente o melhor exemplo que alguém possa invocar em matéria de cuidados com o dinheiro público, que é, em último análise, o fundo do debate.
Se o próprio presidente diz não achar "correto" dar passagens para outras pessoas, como ele o fez, deveria é repetir a frase sobre os "300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses". Mas o poder muda tanto as pessoas que, de condenar, passou a louvar "picaretas" e privilégios indecentes.


crossi@uol.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0305200903.htm

 

Em tempo: Essa conclusão do texto é uma deslouvabranda, kind of "deslouvação muito branda", como a dizer que "a mudança que o poder opera nas pessoas" pode justificar a conduta de nosso líder. Triste que assim seja!



Escrito por LBeraldo às 13h46
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