DO BLOG DO LUIS NASSIF
10/04/2009 - 16:00 Coluna Econômica - 10/04/2009Imagine que você é um delegado da Polícia Federal e lhe cai nas mãos um caso cabeludo. Começa a investigar e descobre que o caso envolve parte relevante da República. Há toda uma estrutura de crime organizado, mas que pega peixe grande de diversos setores. Aparecendo um dos peixões, haverá o foro especial e o caso irá para o Supremo Tribunal Federal. Com quatro anos de estudos e investigações, sabe que a tendência do Supremo será abafar o caso, por tendência liberalizante, pela complacência com o crime do colarinho branco e por não entender a necessidade de uma ação de inteligência, às vezes heterodoxa para enfrentar o inimigo. Sabe que o bandido tem aliados poderosíssimos, nos três poderes e na mídia. E que dificilmente um processo convencional prosperará. *** Sentam-se, então, os investigadores envolvidos no caso - PF e Ministério Público - e montam a estratégia. Para tornar a operação irreversível, na primeira etapa não poderão aparecer suspeitos com foro privilegiado. Por outro lado, precisa criar um fato relevante, estrondoso, que jogue o caso na mídia, lhe dê ampla repercussão, para torná-lo irreversível. *** Começa então o grande jogo. O primeiro lance é tratar de plantar na imprensa notícias sobre a Operação, para assustar o suspeito. Pessoas da sua equipe procuram a jornalista e a notícia sai. O passo seguinte, é montar um baita jogo de cena, como se a notícia tivesse sido vazada por terceiros. E, ao mesmo tempo, fazer chegar ao chefe do bando a disponibilidade para negociar um suborno. Uma prisão por suborno não abre margem a dúvidas na opinião pública. É muito mais fácil de entender do que intrincadas operações de lavagem de dinheiro e outras manobras financeiras. *** A operação é montada, o suborno filmado. É decretada a prisão do chefe da quadrilha, ao mesmo tempo em que a reportagem do suborno sai no Jornal Nacional. Para impedir qualquer alegação de armação, o delegado trata de pedir a prisão até da jornalista que primeiro divulgou a matéria - o que não é concedido pelo juiz. *** A reportagem no Jornal Nacional é o xeque mate. O caso transborda para a opinião pública, torna-se irreversível. O delegado é sacrificado, como havia previsto no início, quando montou sua grande jogada. Mas com a água transbordando por todos os lados, o presidente do Supremo Tribunal Federal é obrigado a se expor. Depois dele, políticos, oposição, governo e os jornalões, se enredam na armadilha coletiva, se expondo de uma forma inédita. Inventam-se escutas ambientais, reportagens falsas, factóides, grampos, irregularidades. Mas nada mais consegue recompor o dique e impedir o prosseguimento das investigações. O delegado é afastado do jogo, mas seu sucessor prossegue. Agora, com o caminho aplainado inclusive para que verdades mais graves possam aparecer. *** A história acima é uma hipótese sobre a Operação Satiagraha, sobre o Delegado Protógenes Queiroz, depois da divulgação do relatório do corregedor Amaro Vieira Ferreira, acusando (embora sem provas) Protógenes de ser o autor do vazamento da Operação Satiagraha para a repórter Andrea Michael, da Folha. É uma hipótese, mas faz sentido. ComentárioQuando Protógenes diz que quem arrumar prova para liberar bandido é bandido obviamente estava se referindo ao relatório Amaro. O delegado trabalhou especificamente para levantar provas pró-Dantas. http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/04/10/um-xadrez-extraordinario/#more-29940
Escrito por LBeraldo às 18h15
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DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (06/04/2009)
FERNANDO DE BARROS E SILVA
Ópera do malandro SÃO PAULO - Pelo andar da carruagem, com direito a foto ao lado da rainha e elogios a céu aberto de Barack Obama, Luiz Inácio Lula da Silva ainda acaba recebendo o Prêmio Nobel. Não o da Paz, mas o de Literatura, pelo conjunto da obra, na ausência de um de Artes Cênicas, que lhe conviria melhor. Não há por que discordar do político mais popular do mundo -Lula é mesmo o cara. Primeiro propagou a ficção da "marolinha" e dela desembarcou sem explicações. Depois responsabilizou os "brancos de olhos azuis" pela crise. Assoprou e mordeu, falou duro ou macio, disse "A" e seu contrário, sempre conforme as conveniências. Agora, Lula tira nova casca e emerge do G20 como uma liderança, acolhido com honrarias no clube dos poderosos. Se o colegiado supranacional contra a catástrofe mundial tivesse de escolher seu urso de pelúcia, Lula seria o melhor candidato. Ao paparicar o operário que chegou lá, o mundo rico expia a sua culpa sem correr riscos adicionais. Quando não se sabe bem o que fazer, mas qualquer mudança radical parece fora do horizonte, a falta de convicções pode ser uma virtude. No caso de Lula, é também um expediente de sobrevivência. Ao dizer que ele é "boa pinta", Obama está a um passo de fazer, na figura de Lula, o elogio do jeitinho brasileiro -da nossa eterna vocação para acomodar conflitos, da arte nacional e malandra de ziguezaguear entre o sim, o não e o talvez. Menos do que o fim do Consenso de Washington celebrado por Gordon Brown, talvez estejamos assistindo à sua "brasilianização". O tema da "brasilianização do mundo" tem sido um tópico recorrente da sociologia. Quem, por aqui, recenseou suas várias dimensões num ensaio corrosivo foi o filósofo Paulo Arantes ("A Fratura Brasileira do Mundo", do livro "Zero à Esquerda"), que, ainda em 2001, dizia: "Na hora histórica em que o país do futuro parece não ter mais futuro algum, somos apontados, para o mal ou para o bem, como futuro do mundo". O colapso em curso tornou essa comédia ainda mais atual. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0604200903.htm
Escrito por LBeraldo às 12h54
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DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (05/04/2009)
FERREIRA GULLAR
Quem governa? Se o presidente não para no Palácio e não despacha, não pode saber o que se passa
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UM RECURSO manjado, de que lançam mão os regimes autoritários e os caudilhos, é inventar um inimigo do povo, que eles estão sempre prontos a combater. Esse inimigo hipotético serve para justificar muita coisa e, sobretudo, para manter a popularidade do regime ou do líder. Lembram-se da guerra das Malvinas, a que a ditadura militar arrastou a Argentina, tentando com isso salvar-se da morte iminente? Um desastre político e militar, mas que, no primeiro momento, contou com o apoio de boa parte do povo argentino, induzida pela convicção de que os ingleses lhe roubaram aquelas ilhas. E quando não são ilhas são alhos ou bugalhos, já que a mania de perseguição parece latente na alma de quase todos nós. Mas, se as ditaduras precisam disso para se garantir, o fantasma do inimigo comum tem sido usado por muitos políticos, particularmente pelos chamados populistas. Chávez, por exemplo, elegeu o Bush inimigo número um do povo venezuelano e chegou até a comprar armas de guerra para se defender de uma suposta iminente invasão do país pelos norte-americanos. A eleição de Barack Obama tornou-se uma ameaça às avessas para Chávez, que, por isso mesmo, já começou a demonizá-lo. Lula não é tão óbvio mas, aqui e ali, nas declarações que dá, deixa sempre implícito que os brasileiros ricos são inimigos dos brasileiros pobres e que ele, Lula, está a postos para impedir que essa perseguição se mantenha. Não o estou equiparando a Chávez com sua revolução bolivariana que, no Brasil, seria motivo de galhofa, e Lula, que sabe muito bem disso, tampouco pensa em revoluções de qualquer tipo. Gostaria, é claro, de se reeleger indefinidamente, mas, como não dá, contenta-se em eleger a Dilma, para retornar em 2014. Logo, não vejo nas insinuações de Lula outro propósito senão o de explorar, em seu benefício, as desigualdades que, sem dúvida, existem, mas que têm causas bem mais complexas do que a suposta maldade de ricos contra pobres ou de brancos contra negros. Ao fazê-las, na condição de presidente da República e líder político, lança na sociedade o germe do ódio racial e de classes, que poderá acabar em lamentáveis consequências. Admito não ser essa a sua intenção e que fale assim para tirar partido das contradições latentes na sociedade. E se o admito é, entre outras razões, pela obviedade como o faz. Logo após a vitória eleitoral de Obama -que se elegeu afirmando que, antes de ser um candidato negro, era norte-americano-, Lula fez questão de frisar que, assim como o Brasil elegera um operário para a presidência da República, os Estados Unidos acabavam de eleger um negro. Noutras ocasiões, repetiu ter pena de Obama, insinuando que, por ser negro, iria atrair o ódio dos brancos e não poder governar. É evidente que não o dizia para Obama, mas para o brasileiro negro. Nesse terreno, a última gafe que cometeu foi, diante do primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, ao afirmar que a responsabilidade pela crise mundial cabe "aos brancos de olhos azuis". Não se dá conta da indigência intelectual de semelhante afirmação, que nos constrange a todos... Não estou dizendo nenhuma novidade. Que o Lula é um político populista todo mundo sabe, já que essa é a marca de seu governo. Se ainda restasse alguma dúvida, bastaria o recente anúncio do PAC da habitação, que promete construir 1 milhão de casas para os pobres, sem ter projeto claro, sem saber onde serão erguidas essas casas e sem data estabelecida para que o plano se realize. E ele mesmo declarou: "Não me cobrem datas". Sim, porque o que lhe importa não é realizar o projeto, mas apenas anunciá-lo. Contado, ninguém acredita. Aliás, ele não faz outra coisa, senão anunciar novos programas, lançar pedras fundamentais, assinar investimentos futuros, proclamar realizações que não saem do papel. Por falar nisso, cabe perguntar: quem será mesmo que governa o país? Dei-me ao trabalho de anotar as "realizações" do nosso presidente durante o mês de março: dia 12, estava no canteiro de obras da hidrelétrica do Jirau, em Rondônia; dia 13, seguia para os Estados Unidos, onde ficou 14 e 15, quando deu conselhos a Obama; dia 16 embarca de volta, chega na madrugada de 17 a Brasília; dia 18, já está no Rio e dia 20 em São Paulo, com Cristina Kirchner; segunda-feira, 22, vai a Recife, depois a Salvador e, 25, em Brasília, lança o pacote da habitação, dia 26,de novo em São Paulo e 28 no Chile... Se o presidente não para no Palácio e não despacha com os ministros, não pode saber o que se passa nos 37 ministérios. Então, quem governa?
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0504200933.htm
Escrito por LBeraldo às 12h05
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