EDITORIAL DA FOLHA DE SÃO PAULO (29/04/2008)
Invasão bilionária
Governo banca negócio nas telecomunicações que solapa concorrência, beneficia dois grupos privados e não emprega
AS "OCUPAÇÕES", eufemismo para invasões, estimuladas pela administração Lula não se restringem ao setor agrário. Com financiamento estatal bilionário e apoio dos fundos de pensão controlados pelo governismo, duas companhias telefônicas acabam de "ocupar" um terreno irregular. A aquisição da Brasil Telecom pela Oi dá-se a contrapelo das normas anticoncentração responsáveis pelo sucesso da privatização da telefonia no país. Como os contumazes invasores de terra, os artífices das negociações da "supertele verde-amarela" não temem repressão do Estado. Pelo contrário, estão certos de que serão, ao fim e ao cabo, premiados com a assinatura do presidente da República no decreto que, após o fato consumado, sacramentará o popular "liberou geral" nas regras para atuação desses gigantes empresariais em território nacional. Invadidos em seus direitos podem se sentir os consumidores, diante do acúmulo de 78% no mercado de internet por linha discada e de 59% no por banda larga na chamada Região 1 (Minas, Rio e outros 16 Estados). Estarão expostos aos efeitos colaterais de uma decisão de gabinete, submetida à ação exclusiva de lobbies políticos e empresariais, que têm propensão genética a misturar-se na falta de luz. O que o BNDES afirma tratar-se de uma consolidação de capital estratégica para o "interesse nacional" beneficia basicamente duas empresas privadas. O segundo grupo de felizardos, mais difuso, vai se locupletar com as gordas comissões, explícitas ou implícitas, que o negócio vai movimentar. Nenhum tijolo será assentado com os R$ 2,6 bilhões de dinheiro público oferecido pelo banco estatal para viabilizar a aquisição. Não haverá garantia de criação de um único posto de trabalho. O negócio "estratégico" é tão pouco promissor nesse aspecto que um acordo teve de ser feito para que não haja demissões nos próximos três anos. O BNDES afirma que não vai colocar dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador, constituído por impostos, no negócio, mas que vai usar recursos da sua carteira de ações. Não existiriam meios de movimentar R$ 2,6 bilhões dessa carteira que gerassem mais empregos e investimentos produtivos, num país com carências gravíssimas na infra-estrutura e que precisa atrair setores industriais de ponta tecnológica? Mas, na versão de "interesse nacional" do governo Lula, o cidadão paga na condição de contribuinte e continua pagando como usuário de telefonia para que uns poucos se beneficiem.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2904200801.htm
Escrito por LBeraldo às 13h28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Da Folha de São Paulo e da Revista VEJA (27/04/2008)

Justiça Tosto foi tostado
Advogado famoso é preso sob a acusação de usar seu cargo no BNDES para liberar empréstimos em troca de propinas
 Heloisa Joly
|
Mario Rodrigues
 |
| Ricardo Tosto, sócio de um dos escritórios mais caros de São Paulo: bon vivant assumido |
O advogado paulista Ricardo Tosto é um dos mais requisitados e caros do país. Seu escritório, aberto em 1991, fatura 50 milhões de reais por ano. Por causa de seu portfólio de clientes, ele foi apontado pela revista Veja São Paulo como umas da estrelas da advocacia nacional. Na semana passada, Tosto foi preso pela Polícia Federal juntamente com outras nove pessoas, sob a acusação de participar de uma quadrilha que cobrava propina para liberar financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O advogado integra o conselho administrativo do banco desde agosto do ano passado por indicação da Força Sindical. De acordo com o inquérito, Tosto e seus supostos comparsas exigiriam de 2% a 4% do valor total dos empréstimos para liberar os recursos da instituição. O esquema teria funcionado em três operações. Duas envolveram a cadeia varejista Marisa e outra a prefeitura de Praia Grande, em São Paulo. O grupo teria abocanhado 21 milhões de reais nessas transações. Além de Tosto, outros dois presos têm ligação com a Força Sindical. Por isso, a Polícia Federal suspeita de que o deputado Paulinho da Força (PDT-SP), presidente da central, esteja envolvido no esquema de corrupção.
A suspeita sobre a cúpula da organização foi reforçada por escutas telefônicas feitas pelos policiais durante as investigações. Em uma delas, dois dos presos comentam a influência de Tosto. "Dentro do PDT e com Paulinho, ele pode muito", diz um deles. Outras gravações mostram reuniões sendo marcadas no escritório do advogado. Como é deputado, Paulinho tem foro privilegiado. Por isso, os policiais precisariam de autorização do Supremo Tribunal Federal para grampeá-lo. Mas preferiram não fazer isso.
 |
Paulinho da Força: ele está no rol dos suspeitos da PF |
A Polícia Federal descobriu o esquema de corrupção quando investigava uma quadrilha que explorava prostitutas e tráfico de mulheres. Bon vivant assumido, colecionador de vinhos caros e charutos cubanos, Tosto é apontado como um dos clientes dos acusados de lenocínio. Seus amigos suspeitos também estão nessa. Todos se reuniriam em um flat em São Paulo, para fazer programas com garotas. Os encontros chegavam a custar 2 000 reais. A polícia investiga se depois de passar algum tempo no flat, as moças, boa parte delas gaúchas, eram levadas para outros países. Os sócios do advogado afirmam que as acusações feitas pela polícia não têm fundamento. Segundo eles, como Tosto não tinha poder decisório no BNDES, os empréstimos não passavam por seu crivo. O banco confirma essa versão.
Escrito por LBeraldo às 21h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|