RABULARUM - espaço dos rábulas inconformados


REVISTA VEJA (01/02/2008)

Diogo Mainardi
Fantasioso? Sórdido?

"No Natal de 2007, recebi de presente um documento sobre a Telecom Italia. Ele confirma integralmente uma reportagem que VEJA publicou dois anos atrás. Na verdade, a história é ainda mais enlameada"

No Natal de 2005, recebi documentos sobre um pagamento de 3,25 milhões de reais da Telecom Italia a Naji Nahas. Tudo ali era suspeito. Um: o pagamento fora efetuado em dinheiro vivo. Dois: o carro-forte entregara o dinheiro na sede da Telecom Italia, em vez de entregá-lo diretamente a Naji Nahas. Três: Naji Nahas faturara 263.000 reais a mais do que o previsto em seu contrato de consultoria.

Passei toda a papelada a VEJA, que publicou uma reportagem sobre o assunto, seguindo o rastro daqueles 3,25 milhões de reais. A reportagem, baseada em fontes da própria Telecom Italia, dizia que o dinheiro fora entregue a um diretor da empresa, Ludgero Pattaro. Ele o enfiara numa maleta e, acompanhado por guarda-costas, encaminhara-se ao hotel Renaissance, onde o repassara a um destinatário de identidade desconhecida. Numa coluna publicada ao lado da reportagem, contei os bastidores do acordo secreto entre a Telecom Italia e o lulismo, sugerindo que aquele dinheiro teria sido usado para azeitar o relacionamento da empresa com o poder político.

O presidente da Telecom Italia, Giorgio Della Seta, classificou as denúncias de VEJA como "absurdas, fantasiosas e sórdidas". Ele afirmou ignorar o que Ludgero Pattaro fazia no hotel Renaissance com uma maleta cheia de dinheiro. Naji Nahas também contestou a reportagem, declarando ter recebido regularmente em seu escritório o valor de 3,25 milhões de reais. O caso parecia morto. Eu parecia absurdo, fantasioso e sórdido.

No Natal de 2007, ocorreu uma reviravolta. Recebi de presente mais um documento. Ele consta do inquérito da magistratura milanesa contra a Telecom Italia e confirma integralmente o que VEJA publicou dois anos atrás. Trata-se de um depoimento de Marco Girardi, diretor financeiro da Telecom Italia no Brasil, realizado no dia 11 de novembro passado. Ele confessou o seguinte:

• Giorgio Della Seta, aquele das denúncias "absurdas, fantasiosas e sórdidas", amigo de Lula e de Marta Suplicy, mandou-o preparar um pacote com 1,3 milhão de dólares em dinheiro vivo.

• Um carro-forte fez a entrega de 3,25 milhões de reais na sede da Telecom Italia. Ali mesmo, um cambista trocou os reais por dólares.

• Os dólares foram entregues a Ludgero Pattaro, assessor direto de Giorgio Della Seta. Ele acondicionou o dinheiro em pacotes de diferentes valores, enfiou-o numa maleta e dirigiu-se ao hotel Renaissance, repassando-o a algumas pessoas que Marco Girardi nunca vira.

• Alguns dias depois, Giorgio Della Seta mandou o diretor financeiro entregar mais 406.000 reais a Ludgero Pattaro, para um pagamento análogo.

Mas a história é ainda mais enlameada. Outro diretor da Telecom Italia, Marco Bonera, admitiu em juízo ter transportado 300.000 dólares a Brasília, para recompensar um grupo de deputados federais. A leitura da confissão de Marco Girardi mostra que aqueles 300 000 dólares, adiantados pela Pirelli como "despesas de viagem", fazem parte da transação com Naji Nahas.

Até 2006, a Telecom Italia foi a grande aliada do lulismo na batalha pelo espólio da Brasil Telecom. Um espólio que está para ser cedido à Telemar, por meio de um decreto presidencial. Ludgero Pattaro, o homem da maleta cheia de dólares, é candidato a uma das vagas no conselho consultivo da Anatel, que analisará o negócio. Absurdo? Fantasioso? Sórdido? Sim, tudo isso.

http://veja.abril.com.br/060208/mainardi.shtml



Escrito por LBeraldo às 21h21
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Folha de São Paulo de hoje (28/01/2008)

Populismo e despreparo

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

Colhe o mundo, atualmente, uma notável safra de pseudolíderes que conduzem nações mais ou menos desenvolvidas

COLHE O mundo, atualmente, uma notável safra de pseudolíderes, populistas e despreparados, que conduzem nações mais ou menos desenvolvidas exclusivamente baseados no poder de comunicação com o povo, principalmente com a parcela menos favorecida.
Partem do princípio de que, para os políticos, "as promessas que fazem só comprometem os que as recebem" -como dizia Roberto Campos, que muitos nem sequer conheceram. Foi o que ocorreu quando o presidente Lula, a fim de ver aprovada a DRU no Senado, prometeu à oposição e ao povo que não iria lançar pacotes tributários nem aumentar tributos, mas, dias depois, descumpriu o prometido.
Na mesma linha, o histriônico presidente venezuelano -capaz de criar desnecessárias resistências por ser incapaz de controlar seus repentes e ofensas- transforma o narcotráfico colombiano e sua indústria de seqüestros em "idealística" guerrilha.
Começa, porém, em sua democracia de um homem só, a sentir as resistências de um povo cansado de ver que o governo tem dinheiro em excesso, por força de sua monoeconomia (petróleo), mas, curiosamente, no país tudo falta e a inflação explode.
O certo é que a "democracia" de um presidente despreparado, que pretende ser perpétuo, periclita na Venezuela.
O mesmo se pode dizer de Morales, que também pretende se perpetuar no poder e que começa, com sua enciclopédica e truculenta ignorância, a dividir a nação. Lá também a democracia corre risco.
É de lembrar que os três presidentes são amigos de um ditador que, de acordo os dados internacionais, fuzilou, sem julgamento -os homicídios perpetrados nos famosos "paredóns"-, muito mais pessoas que Pinochet, mas que, no entanto, nenhum juiz espanhol ou italiano pretende levar aos tribunais internacionais.
Nada obstante devessem os dois, de há muito, terem sido condenados, pelas mortes que causaram, pelos tribunais de seu tempo -pois, pelo tribunal da história, já estão julgados no mesmo nível de Hitler, Mussolini e Stálin-, a única diferença entre esses assassinos (Fidel e Pinochet) é que o Chile progrediu mais do que Cuba.
A Ásia não fica distante das Américas, sob esse aspecto. O presidente do Paquistão tem na força do Exército sua sustentação contra a vontade popular, sendo notória a sua omissão na proteção devida à sua concorrente, Benazir Butto, lamentavelmente assassinada em plena campanha para desbancá-lo do poder.
O continente todo passa por momentos de conturbação. O Oriente Próximo continua um barril de pólvora em que a democracia é um sonho distante.
Da África, nem há o que falar, sendo os recentes episódios do Quênia uma triste reincidência das pretéritas lutas tribais, de cruel violência.
A Europa se isola dos problemas extracontinentais, e os Estados Unidos, depois da desastrada presidência de George W. Bush, responsável pela morte de 151 mil civis no Iraque, corre o risco de votar num outro populista despreparado para conduzir seus destinos, em um momento em que sua economia dá sinais de decadência.
Neste mundo atormentado por falsas lideranças e fantástica mediocridade política, creio que valeria a pena retomar a idéia -que propus em meu livro "O Estado de Direito e o Direito de Estado", em 1977- de uma "escola de governo" em nível de primeiro grau para os cargos municipais, de segundo grau, para os cargos estaduais, e universitário, para os cargos federais, na qual se preparariam líderes para dirigir a nação.
Arthur Lahl, embaixador da Índia na ONU, chegou inclusive a pensar numa "Universidade Mundial", em 1970, para a preparação de líderes internacionais. Tanto na minha proposta como na de Lahl, os governos financiariam tais escolas (Brasil e ONU), sem ônus para os que se sentissem vocacionados e fossem aprovados em exame vestibular.
De alguma forma, é o que a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, nos cursos do CPEAEx, faz com os coronéis em via de serem indicados ao generalato, que passam um ano inteiro estudando na praia Vermelha os grandes problemas nacionais e mundiais antes de sua eventual promoção.
Creio que é o momento de a sociedade exigir a melhor preparação de seus líderes, objetivando fazer o Estado servir à sociedade, e não a sociedade aos governos.
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS , 72, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio e do Centro de Extensão Universitária.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2801200808.htm

Escrito por LBeraldo às 22h47
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