RABULARUM - espaço dos rábulas inconformados


FLHA DE SÃO PAULO (12/01/2008)

CLÓVIS ROSSI

Insanidade

SÃO PAULO - O presidente venezuelano Hugo Chávez acaba de ultrapassar a fronteira entre a bufonaria de grande parte de suas declarações e gestos para entrar no pantanoso território da insanidade megalômana.
Chávez ousou ontem pedir que o governo da Colômbia deixe de considerar as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como "terroristas" para tratá-las (e, de quebra, ao Exército de Libertação Nacional, outro grupo terrorista) como "insurgentes". Pior: afirmou que ambos os grupos têm um "projeto político que é respeitado na Venezuela".
Difícil é saber por onde começar entre tanta insanidade. Primeiro, as Farc, de fato, não são terroristas. São delinqüentes. Ponto. Vivem do narcotráfico e do pagamento de resgates para libertar as pessoas que seqüestram. Banditismo puro. Se Chávez respeita esse "projeto", é cúmplice de banditismo.
Mais: um grupo que retira uma criança da mãe, como o fez com o filho de Clara Rojas, e faz com que seja entregue a um orfanato, com leishmaniose e desnutrido, só pode ser tratado como criminoso. Ontem, aliás, uma das liberadas anteontem, Consuelo González de Perdomo, contou que, entre outras barbaridades sofridas pelos reféns, está a ausência de atenção médica. Ela própria teve paludismo três vezes e leishmaniose duas.
A insanidade do presidente venezuelano vai ao ponto de estender o pedido aos países da América Latina e à União Européia, que rotula as Farc de grupo terrorista. O despropósito é tão colossal que força a dizer o óbvio: não cabe a Chávez dizer quem é terrorista, quem é bandido e quem é "insurgente" na Colômbia ou em qualquer outra parte.
Se Lula, que parece ter medo de Chávez, não der um chega pra lá, o próximo passo é o venezuelano exigir tratamento de insurgente também para o Comando Vermelho.


crossi@uol.com.br


Escrito por LBeraldo às 11h12
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FOLHA DE SÃO PAULO (08/01/2008)

Lula, o "venezuelano"

AUGUSTO DE FRANCO


São os bolsões de pobreza que garantem a eleição de populistas. Lula quer acabar com a pobreza? Não, o que quer é mantê-la


SE NOSSO IDH fosse mais próximo de 0,9 (em vez de 0,8), Lula jamais governaria o Brasil. Quem garante seus votos e liderança é a pobreza. É por isso que Lula não ganha eleição para prefeito de São Bernardo. É por isso que não ganha para governador de São Paulo nem de qualquer Estado do Sul (talvez com exceção do Paraná, que só é governado pelo chavista Requião por concentrar a maior pobreza da região).
São os bolsões de pobreza que garantem a eleição de populistas. Lula quer acabar com a pobreza? Não, o que quer é mantê-la, transformando as populações pobres em beneficiárias passivas e permanentes dos programas assistenciais. Ele gosta, sim, do povo, mas como massa informe de pré-cidadãos Estado-dependentes.
Façam uma análise dos levantamentos existentes, resultantes da aplicação de vários indicadores de desenvolvimento. A votação de Lula aumenta nos lugares em que esses indicadores (inclusive o IDH) diminuem. Isso não pode ser por acaso, pode? Só acontece porque Lula é um "venezuelano". Em Caracas, nosso presidente viveria feliz como pinto no lixo.
O PIB da Venezuela vem crescendo a taxas próximas de 10% nos últimos anos. Apesar disso, a Venezuela tem muitos pobres. Seu IDH é 0,784 (72º lugar no ranking mundial). Com o dinheiro do petróleo, Lula poderia fazer um super "bolsa-esmola" para economista-áulico nenhum botar defeito.
A noção de democracia de Lula casa perfeitamente com o regime político venezuelano. Lá, não vigora mais essa besteira de rotatividade (ou alternância) democrática. Autorizado, como Chávez, por uma "lei habilitante" (muito melhor do que medida provisória), Lula poderia criar, numa penada, não uma, mas meia dúzia de TVs governamentais. Poderia tirar a Globo do ar e empastelar a revista "Veja".
E, sobretudo, poderia continuar no poder indefinidamente, convocando plebiscitos e referendos para dizer que não está fazendo nada mais do que obedecer à vontade da maioria.
Lula, o "venezuelano", acha que democracia é o regime da maioria (e não o das múltiplas minorias). Não sou eu que estou dizendo.
No dia 20/4/2005, Lula discursou em um congresso de trabalhadores: "É importante saber o que nós éramos há três anos e o que nós somos agora... O que aconteceu no Brasil... o que aconteceu no Equador, o que aconteceu na Venezuela, que foi já um pouco mais para frente (sic), e o que pode acontecer na evolução política de outros países do continente...".
No dia 29/9/2005, em outro discurso, este no Palácio do Planalto, disparou: "Eu não sei se a América Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática na Venezuela. Um presidente que ganha as eleições, faz uma Constituição e propõe um referendo para ele mesmo; faz um referendo e ganha as eleições outra vez. Ninguém pode acusar aquele país de não ter democracia. Poder-se-ia até dizer que tem excesso".
No dia 7/6/2007, numa entrevista a esta Folha, na embaixada do Brasil em Berlim, Lula disse: "O fato de ele (Chávez) não renovar a concessão (da RCTV) é tão democrático quanto dar. Não sei por que a diferença entre dois atos democráticos".
E no dia 14/11/2007, em outra entrevista, no Itamaraty, ele reafirmou: "Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa. Inventem uma coisa para criticar. Agora, por falta de democracia na Venezuela, não é".
Seria preciso dizer mais? Muita atenção, porém: Lula é um "venezuelano" que quer, mas não pode se comportar como Chávez. Se tentasse "chavecar" por aqui, o problema estaria resolvido. Nossa sociedade, bem mais complexa, rejeitaria de pronto o tiranete. Lula é o Chávez possível nas condições do Brasil.
Dizendo de outro modo, o Brasil não é uma ditadura -nem mesmo uma protoditadura (como a Venezuela)-, mas uma democracia formal parasitada por um regime neopopulista manipulador, em que um grupo privado que ascendeu ao poder pelo voto, com base na alta popularidade de seu líder, tenta permanecer no poder sem violar abertamente a legalidade democrática, mas pervertendo a política e degenerando as instituições para manipular a opinião pública e as leis a seu favor.
Não ter entendido a natureza desse governo e o caráter do seu líder foi a desgraça das nossas oposições. Até Fernando Henrique, o mais lúcido dos oposicionistas partidários, alimentou a estranha crença de que "o conteúdo simbólico da sua liderança (de Lula) é um patrimônio do país que não deve ser destruído". Pois é. Não destruíram mesmo.
Preservaram, blindando Lula, infelizmente, contra a democracia.


AUGUSTO DE FRANCO , 57, analista político, é autor, entre outras obras, de "Alfabetização Democrática". Foi membro do comitê executivo do Conselho da Comunidade Solidária durante o governo FHC (1995-2002).

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0801200809.htm



Escrito por LBeraldo às 01h17
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FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (06/01/2008)

JANIO DE FREITAS

De Lula lá a lelé


AINDA BEM que foi o próprio Lula quem emitiu, para todos os interessados, esta frase de ares definitivos: "Não há nenhuma razão para que alguém faça uma loucura de aumentar a carga tributária". Ainda bem, sim, porque tudo parece amalucado no lançamento do pacote que vinga a derrota de Lula no seu empenho pela CPMF (outra sentença lulista: "Ninguém pode governar sem a CPMF").
No exagero com que decretou como mentiras as afirmações de que não haveria aumento de impostos nem pacotes ("Acabou o tempo dos pacotes"/ "Tenho ojeriza a pacote"), a forra governamental impõe, à população em geral, aumento de imposto que pode chegar a duas, três, quatro ou mais vezes o que era a CPMF. É que os preços não abatem a CPMF neles embutida há anos e lhes acrescentam os aumentos de impostos. Mas, se é assim para a população em geral, o peso punitivo dos aumentos se agrava da classe média para baixo e, com especial pontaria, nas classes mais baixas: são as que dependem das compras a crédito para melhorar o seu padrão de vida.
Na véspera do Natal, dizia Lula, em autolouvação a propósito desses consumidores dependentes do crediário: "Quem está indo a um lugar em que se vende muito percebe que o povo está comprando, está indo às compras. Significa o quê? Significa que essas pessoas estão tendo ascensão em sua vida social, as pessoas estão fazendo parte do mercado, as pessoas estão virando consumidores". Pois foi principalmente a esses, enfim "fazendo parte do mercado" e "virando consumidores", que, uma semana depois, o pacote do Ano Bom presidencial vem refrear na sua "ascensão", com os impostos lançados sobre a modalidade de compra que podem usar. Para dizer o mínimo, essa incidência do imposto é de um reacionarismo revoltante.
Estamos forçados a reconhecer que tamanha falta de senso, na massa de contradições apenas exemplificada aqui, é amalucada o bastante para confirmar a "loucura" que o próprio Lula diagnosticou, por antecipação, em "alguém que faça aumentar a carga tributária". Ele.
Tudo isso é à parte, claro, do que o pacote e o aumento de impostos, negados com tanta ênfase por Lula, representam do ponto de vista ético. Nesse aspecto, ninguém pode dizer que fossem surpreendentes. Por mim, é suficiente um registro: se me desculpam o recurso ao que se tornou um bordão, "nunca antes neste país" vi, nos governos civis, semelhante predomínio da insinceridade e sua desfaçatez.

Nova leva
A inscrição recordista de novos filiados aos 29 partidos -815 mil em 2007- é um mau prenúncio para nossas cidades já tão vitimadas por suas Câmaras de Vereadores. Se houver as exceções de praxe, o que só o tempo dirá, ainda assim o que explica a corrida aos poucos partidos e tantos pseudopartidos é o oportunismo em busca desta boca riquíssima: tornar-se político profissional nas eleições municipais deste ano. Não são, no geral, militantes motivados por idéias e programas, ou não se filiariam só com a antecedência exigida para candidatar-se.
E assim, na completa frouxidão do sistema partidário e eleitoral, se vão fazendo os quadros políticos para legislar e governar o país.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0601200808.htm



Escrito por LBeraldo às 23h36
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