FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE 25/08/2007
MELCHIADES FILHO
A força do mensalão
BRASÍLIA- Da operação mensaleira, só o layout foi desmantelado. As relações entre Executivo e Legislativo mantêm-se inalteradas no vício: o governo consegue apoio em troca de verbas e cargos; os congressistas condicionam o voto às liberações e nomeações. Um é refém do outro, mas satisfeitos -uma Síndrome de Estocolmo de mão dupla. A idéia de uma reforma política geral, que inspirou discursos moralizantes no vácuo da denúncia de Roberto Jefferson, nunca foi abraçada de verdade. Lula abandonou-a tão rapidamente que deixou sem fala seus intérpretes no Congresso. Deputados e senadores agora discutem impor algum tipo de fidelidade aos partidos com a ajuda da Justiça Eleitoral. Com menos migrações, alegam, ficariam fortalecidos para lidar com o Planalto. A ameaça de cassar o mandato, porém, não é suficiente para mudar o jogo. O vira-casacas poderá apoiar o governo de dentro da oposição. Fechará os negócios no plenário. Dar um cheque em branco às cúpulas partidárias não parece sensato também. Elas se atolaram em escândalos, o do mensalão incluído, e atuam descomprometidas das bases e estatutos (quando existem). Não por acaso, o brasileiro se habituou a votar em nomes, não em siglas. É o candidato quem faz discursos, escolhe bandeiras, produz santinhos e paga contas. Mudar a regra no meio do mandato, aliás, não desrespeitaria esse eleitor? Por fim, a fidelidade a ferro e fogo pode amarrar a democracia. Em 1984, a ditadura apegava-se a esse princípio para emplacar Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. Quem liberou a debandada que selou a vitória de Tancredo Neves foi o TSE, o tribunal que hoje empareda o Congresso com interpretação oposta. Quisessem conter a fisiologia, Legislativo e Executivo adotariam o orçamento impositivo. O apelo a um Judiciário pouco virtuoso para arbitrar a atuação parlamentar só tende a causar confusão -sabida tática da turma do "como está fica".
mfilho@folhasp.com.br
Escrito por LBeraldo às 15h12
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FOLHA DE SÃO PAULO DE 24/08/2007
BARBARA GANCIA
O novo Cacareco
O dono do prostíbulo periga ser eleito vereador, tal e qual o saudoso habitante do zoológico de São Paulo
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SÃO PAULO não se contenta com pouco. Para quem já fez de Paulo Maluf (depois da detenção do ex-prefeito) seu deputado mais votado e já colocou Enéas e Clodovil Hernandes no Congresso, nada mais natural do que transformar o dono de um bordel em mártir. Você, meu nobre leitor, que nas últimas semanas recebeu variações sobre o mesmo tema da mensagem que circula na internet, dizendo que o dono do prostíbulo foi o único que pagou pela queda do Airbus da TAM, sabe do que estou falando. Oscar Maroni, que se auto-intitula o "Larry Flynt brasileiro", mas já foi preso por porte ilegal de arma de fogo e nunca, que se saiba, arriscou o pescoço pela liberdade de expressão como fez seu "fac-símile" norte-americano, está sendo usado como bode expiatório pelo pessoal que, antes mesmo do fim das investigações, defende a inocência do governo Lula na queda de mais um avião da TAM em Congonhas. A inversão de valores é tamanha e a desonestidade dos propósitos tão gritante, que muitos dos que defendem cegamente o governo chegam a dizer que, antes do acidente com o Airbus, ninguém na prefeitura se incomodava com o Bahamas. E que, agora, a prisão do dono da dita "boate" está sendo usada politicamente pelo prefeito Gilberto Kassab. Ora, que eu saiba, não é o Bahamas que está sendo questionado pelos órgãos públicos e, sim, o Oscar's, flat vizinho que deveria servir à clientela de Maroni e que está sendo erguido, com alvará de origem duvidosa, no meio do caminho das aeronaves que pousam em Congonhas. Pois é, antes do acidente com o avião da TAM, ninguém tinha se dado conta de que um prédio que ia interferir na rota dos aviões estava sendo construído com alvará falso ou comprado. Mas, depois de ter tomado conhecimento do fato, o que o prefeito Kassab deveria ter feito? Deixado Maroni continuar a construção? Pedido a ele gentilmente que parasse de atrapalhar o tráfego aéreo? Fornecido um alvará legítimo ao novo herói da cidade? Já disse e repito que nada tenho contra mulheres que ganham a vida vendendo ou emprestando o corpo. Muito ao contrário, dou a maior força às profissionais do ramo, pois estou convencida de que elas prestam um serviço indispensável, que requer vocação e estômago. A única coisa que acharia lamentável seria ver o senhor Maroni sair candidato a vereador nas próximas eleições e virar o nosso novo rinoceronte Cacareco, saudoso habitante do zoológico de São Paulo que recebeu mais de 100 mil votos em eleição para vereador, em 1959. Equiparar os currículos de Oscar Maroni e Gilberto Kassab ou tratar a questão como se, moralmente, os dois se equivalessem é deturpar os fatos. Coisa que o pessoal que defende as ações do governo Lula por princípio, obstinadamente, sem analisar de forma objetiva caso a caso, está se especializando em fazer. Vale tudo, até defender o dono da casa de tolerância contra o prefeito em uma contenda em que a culpa do que vive de aliciar mulheres é evidente. Se você, excelente leitor, tem dúvidas a respeito da afirmação acima, pergunte aos pilotos que pousam em Congonhas se o prédio de apartamentos ao lado do Bahamas apresenta ou não um problema.
barbara@uol.com.br
Escrito por LBeraldo às 15h10
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