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REVISTA VEJA de 14/07/2007
Diogo Mainardi Pra frente, Bulgária!
"Despencamos na lista de países que mais recebem turistas estrangeiros. Fomos superados pela Bulgária. O que é que a Bulgária tem? Tem a mesquita de Banya Bashi, tem o cavaleiro de Madara, tem sopa fria de pepino e tem kebab. O Brasil foi esculachado pela Bulgária em outra estatística internacional: a da corrupção"
Que Brasil, que nada. A gente passou os últimos setenta anos cantando por aí que o Brasil era lindo e trigueiro. Que era a terra boa e gostosa da morena sestrosa. Ninguém acreditou. Mentimos mal. No ano passado, segundo os dados da ONU, despencamos para o 37º lugar na lista de países que mais receberam turistas estrangeiros, com uma queda de 400.000 pessoas. Fomos superados pela Bulgária. O que é que a Bulgária tem? Tem a mesquita de Banya Bashi, tem o cavaleiro de Madara, tem sopa fria de pepino e tem kebab.
Em 2003, Lula anunciou um plano cuja meta era triplicar o número de turistas estrangeiros até o fim de seu mandato. Como tudo o que ele faz, deu errado. Como tudo o que ele diz, era uma balela. Em seus quatro primeiros anos de governo, nada triplicou no Brasil. Nada mesmo. Nem a fortuna pessoal de Lula – ela só dobrou. Outros dados da ONU: em 2003, recebemos 0,59% do total de turistas que circularam pelo planeta. Sabe quanto recebemos em 2006? Os mesmos 0,59%. Em 1998, recebemos 0,77%. Em 1999, 0,78%. No mundo todo, nunca se viajou tanto quanto no ano passado. Além do Brasil, só cinco países conseguiram perder turistas. Proporcionalmente, nenhum deles perdeu tanto quanto o nosso. 2007 está com pinta de ser ainda pior. De janeiro a maio, os desembarques caíram mais de 10% se comparados a igual período de 2006.
Na semana passada, o Brasil foi esculachado pela Bulgária em outra estatística internacional. Em 2002, de acordo com um estudo publicado pelos técnicos do Banco Mundial, os dois países estavam praticamente empatados em matéria de corrupção. Naquele ano, os homens públicos brasileiros mereceram uma nota de 54,4 e os búlgaros se posicionaram imediatamente atrás, com 53,4. Depois de quatro anos de farra lulista, o quadro mudou. A nota dos brasileiros caiu para 47,1 enquanto a dos búlgaros subiu para 57,3. Só regimes podres como o da Venezuela apresentaram uma queda maior do que a nossa.
O ministro-chefe da Controladoria-Geral, Jorge Hage, caiu na patetice de tentar salvaguardar Lula do descrédito mundial, argumentando que os dados resultavam "de uma mixórdia de questionários com perguntas diferentes, e depois submetidas a exercícios estatísticos mirabolantes que não resistem a nenhum teste cientificamente sério". A pessoa mais indicada para desmenti-lo é Marta Suplicy. Em 2001, à frente da prefeitura de São Paulo, ela encomendou um projeto de combate à corrupção aos mesmos técnicos do Banco Mundial que acabam de ser atacados por Jorge Hage.
Marta Suplicy tornou-se ministra do Turismo. Jorge Hage tornou-se uma autoridade no combate à corrupção. Com gente assim, o Brasil continuará despencando nas listas internacionais. A Bulgária ficará cada vez mais distante. Podemos até cantar que o Brasil é lindo e trigueiro, mas ninguém acreditará em nós. Mentimos mal. Só nós acreditamos em nossas mentiras. Dovizhdane.
Escrito por LBeraldo às 16h15
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FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (13/07/2007)
BARBARA GANCIA
Maravilhosa e despudorada
Não consigo me empolgar com uma cidade que poderia ser uma das mais visitadas do mundo e hoje vive em pé de guerra
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JURO QUE NÃO é torcida contra nem inveja de paulistano. Mas, quando os Jogos Pan-Americanos forem declarados abertos logo mais à noite, pode crer, eu não estarei na frente da TV dando uma de patriota entusiasmada. É claro que espero que dê tudo certo, que os atletas voltem para casa maravilhados com o samba, a caipirinha, a mulher brasileira e a simpatia contagiante do carioca, mas não consigo me empolgar com um evento que deveria ter custado R$ 375 milhões e extrapolou o orçamento até chegar em obscenos R$ 3,7 bilhões. Não consigo me empolgar com uma cidade que poderia figurar entre as mais visitadas do mundo e hoje vive em pé de guerra. O Rio de Janeiro é deslumbrante, mas deixou escapar em meio às balas perdidas sua vocação pelo turismo. Não são só os assaltos na rota entre o aeroporto e o hotel ou a morte, de tempos em tempos, do visitante pelo bandido que tentava levar sua máquina fotográfica. Turista que visita a cidade maravilhosa é tratado feito otário o tempo todo. É roubado pelo taxista, pelo vendedor da loja de suvenir, pelo garçom do restaurante e pelo sujeito que vende sorvete na praia. Não adianta tapar o sol com a peneira festejando a eleição do Cristo Redentor como uma das sete novas maravilhas do mundo. Tem algum valor uma votação na internet que é apoiada por um banco? Não deveria ser impugnada uma eleição em que os governos de alguns países fizeram campanha maciça para ver seu monumento eleito? Na quarta-feira falei com um colega carioca que participa da cobertura dos Jogos. Ele me disse que o trânsito na cidade está caótico e que ele está levando uma hora para fazer um percurso que, antes dos jogos, tomaria 15 minutos. Os atletas também já começaram a reclamar. Uns dizem que a quantidade de mosquitos nos alojamentos é insuportável. Outros, que a comida no refeitório é pouca e que não podem repetir o prato, pois existe um controle com tarjetas de código de barra. Há quem tenha se queixado da falta de TVs nos quartos. E quem não consiga ir de a até b, por falta de orientações na Vila do Pan. Na terça-feira, o ônibus que levava atletas da equipe brasileira de remo foi apedrejado ao passar diante de uma favela. E, na quarta, um dos membros da organização do Pan deu uma cabeçada em um dirigente esportivo do Flamengo, arrancando-lhe um dente. Em entrevista, Raul Bagattini, o dirigente do Flamengo desdentado, disse que não iria prestar queixa na delegacia, alegando que levar seu agressor a julgamento "não iria dar em nada". "No máximo, ele vai ter de pagar umas cestas básicas, e eu não tenho tempo a perder com isso", disse ele. Pelo que entendi da afirmação do senhor Bagattini, ele não confia na Justiça e não acredita em punir quem usa de violência. É o mesmo tipo de mentalidade que prevalece entre aqueles que criticam a ação do governo Sérgio Cabral nos morros. Em vez de consertar o que está errado, deixa como está, para ver como é que fica, "mehmão"! Pois eu só quero ver o que vai acontecer na hora em que apedrejarem o ônibus da delegação argentina ou se algum atleta norte-americano voltar para casa com dengue.
barbara@uol.com.br
Escrito por LBeraldo às 12h06
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Folha de São Paulo de hoje (12/07/2007)
Eduardo 3º e a senatorial república
FREI BETTO
Amolecido pelo dinheiro, o barro torna-se ainda mais maleável. O corrompido não passa de argila fresca nas mãos do corruptor
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N ÃO SE sabe se Shakespeare é autor de "Eduardo 3º", peça que figura entre seus textos apócrifos. Os críticos ao menos estão de acordo que teria ele contribuído para os dois primeiros atos. A peça aborda um tema perene: governantes governam governos e, no entanto, quase nunca sabem se governar. O que ocorre a eles bem sabemos, mudam os tempos, diferem os costumes: enredam-se em rabos de saia, nomeiam juízes e jurados do próprio julgamento, compram uma novilha para entrar na maracutaia e vendem a boiada para não sair dela. Foi o rei Eduardo 3º (1312-1377) quem criou a Ordem da Jarreteira, a mais antiga e importante comenda britânica, concedida aos que se destacam pela lealdade à coroa. Jarreteira é uma liga azul de prender meias. O criador da ordem de tão curioso nome se casou aos 14 anos com a belga Filipa, que lhe deu 13 filhos. Mais tarde, apaixonou-se por Joan, condessa de Salisbury, que insistiu em manter-se fiel a seu segundo marido, malgrado o assédio real. Durante um banquete em Calais, em comemoração à posse inglesa da cidade francesa, o rei tirou a condessa para dançar, sob os olhares perplexos da rainha Filipa e da corte. Súbito, uma das meias de Joan se desatou e desceu ao pé. O rei, sem o menor constrangimento, apanhou a liga azul e a amarrou debaixo de seu joelho esquerdo. Diante do murmúrio provocado por tão ousado gesto, Eduardo 3º pronunciou a frase que se tornaria o lema da Ordem da Jarreteira: "Honi soit qui mal y pense" (Maldito seja quem pensar mal). Vivesse em nossa época, Shakespeare teria à sua disposição vasto material, menos nobre, é verdade, descoroado, pois não convém comparar Eduardo 3º com a farsa do senatorial Conselho de Ética. Feita de barro e sopro, a natureza humana é sempre a mesma. Sendo o sopro de natureza divina, invisível e volátil, como todos os dons que dependem de nossa liberdade de acolhê-los e cultivá-los, fica o barro como o atoleiro no qual metemos as mãos, os pés e a alma. Amolecido pelo dinheiro da corrupção, ele se torna ainda mais maleável. O corrompido não passa de argila fresca nas mãos do corruptor. Na peça, ao advertir a filha acerca da corrupção no poder, um nobre se expressa num estilo que traz a marca registrada de Shakespeare: "(...) o veneno mostra-se pior numa taça de ouro; a noite escura parece mais escura ao clarão do relâmpago; os lírios que apodrecem fedem muito mais que ervas daninhas". Nós, brasileiros, já não vivemos numa monarquia, malgrado a pose majestática de alguns de nossos políticos. E nossa República cheira a republiqueta. Em matéria de corrupção, distamos, e muito, da taça de ouro, do clarão do relâmpago e dos lírios. Restam-nos as ervas daninhas: bingos, caça-níqueis, novilhas e bois. Nossa podridão fede no curral. Chafurdamos na indignação como espectadores de uma tragédia democrática. Quando a platéia subirá ao palco? Darcy Ribeiro gabava-se, em suas palestras, do direito de plagiar a si mesmo. Todos que falam em público sabem como é impossível ser original a cada vez que se abre a boca. A prova mais contundente de que Shakespeare enfiou sua colher de pau na cozinha de "Eduardo 3º" reside no fato de ele repetir literalmente, em seu "Soneto 94", a frase "os lírios que apodrecem fedem muito mais que ervas daninhas" ("Lilies that fester smell far worse than weeds"). Aliás, em matéria de plágio, nossa senatorial maracutaia não fica atrás, noves fora o talento. De curral a curral, a pecuária soa a pecuniária. Dinheiro vivo na boca do caixa, mais ignóbil que uma taça de ouro, ou entregue pelo lobista na porta de casa, sem um ramo de lírio. A vida extrapola a ficção. Mas, quando a repulsa paralisa a platéia, a impunidade campeia. De cima do palco, eles se abrigam na escuridão, protegidos pelo manto da imunidade, posando de vítimas ao relampejar dos holofotes da mídia. Aqui embaixo somos envenenados pelo cheiro da podridão.
CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 62, frade dominicano e escritor, é autor de, entre outras obras, "Calendário do Poder" (Rocco). Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
Escrito por LBeraldo às 20h34
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