REVISTA VEJA DE 06/05/2007
André Petry A burrice do rei
"Alguém com uma carreira artística há quarenta anos, e um sucesso inigualável, deveria ter ao menos noção da relevância da liberdade de expressão. E Roberto Carlos parece que não entendeu nada"
A cena é repulsiva: o caminhão parou diante do depósito da editora e recolheu 670 caixas, cada uma delas com dezesseis exemplares do livro. Carregando 10.700 exemplares, dirigiu-se para um depósito em Santo André. Ali, os livros poderão ter dois destinos: ou serão reciclados, rendendo cerca de 2,5 toneladas de papel, ou queimados numa fogueira.
Eis, em resumo, o desfecho do caso envolvendo o livro Roberto Carlos em Detalhes, escrito pelo historiador Paulo Cesar Araújo, que foi censurado como resultado do acordo judicial mais escandaloso e esdrúxulo de que se tem notícia. É inacreditável que num país livre, em plena vigência do estado de direito democrático, com uma Constituição que assegura a liberdade de expressão, tenhamos uma fogueira queimando milhares de livros. É grotesco e vergonhoso.
A grande fogueira, no entanto, vai queimar mais do que livros. Vai queimar a biografia mesma de Roberto Carlos e, junto com ela, o respeito que alguns milhares de fãs têm pelo rei – e que se incinerou com sua iniciativa intolerante e burra. É intolerante porque não há nada, nas 504 páginas do livro, que possa ser considerado uma invasão de privacidade em se tratando de uma personalidade pública – cuja privacidade, obviamente, é mais restrita do que a de um cidadão comum. É intolerante porque o rei não se contentou em retirar do livro trechos supostamente ofensivos (veja reportagem na página 120). Não, ele quis censurar o livro todo, todas as 504 páginas, todos os quinze capítulos, tudo. E, por fim, é uma iniciativa burra porque alguém com uma carreira artística há quarenta anos, e um sucesso inigualável, deveria ter ao menos uma noção da relevância da liberdade de expressão – a sua, a dos outros, a de todos. E Roberto Carlos parece que não entendeu nada. Sua estupidez não lhe deixa ver que a violação à liberdade de expressão começa proibindo que se diga algo e, como ensina a história das tiranias, termina exigindo que se diga outro algo. Já pensou exigir que Roberto Carlos grave Se Eu Quiser Falar com Deus, a belíssima canção de Gilberto Gil da qual ele não gosta nem de chegar perto?
A fogueira vai queimar também os dedos da Justiça, na pessoa do juiz Tércio Pires, que, mesmo sem identificar calúnia, mentira ou difamação no livro, abençoou o acordo e assassinou a liberdade de expressão. O estarrecedor é que a censura não decorreu de um ato autoritário, costurado às escondidas da Justiça. Foi selado dentro de um tribunal! Na presença de um juiz! E promotor! Será que um juiz pode promover um acordo que fere um direito constitucional? Criamos a censura legal? A ditadura judiciária?
A burrice de Roberto Carlos e a indigência da Justiça, associadas à covardia da editora Planeta, que deveria ter insistido para fazer soar sua sílaba, são reflexos dos tempos ameaçadores que vivemos. Uma hora são os pequenos ditadores religiosos querendo, autoritariamente, impedir a realização de um debate sobre o aborto. Outra hora são os petistas, do fundo de sua alma totalitária, propondo formas de controlar o noticiário da imprensa em época de eleição.
E, agora, essa. O rei é intolerante e burro. A justiça é indigente. E a vítima somos todos nós.
Escrito por LBeraldo às 12h26
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FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (06/05/2007)
JANIO DE FREITAS
Algo no meio da obsessão
De repente Lula tornou-se obsessivo quanto a hidrelétricas no rio Madeira, fala nisso todos os dias
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A FARTURA de situações ridículas nestes últimos tempos ainda não foi capaz de fazer-nos indiferentes, por tédio pessoal ou pesar pelo país, ao estilo Lula. Por ora, não chegamos lá, mas são muitos os sinais de que já estamos perto. É apenas natural que nem pelo humor se reaja mais às bobagens do tipo "nunca na história", "é o maior plano de desenvolvimento que já existiu", "o atendimento à saúde está quase na perfeição". O problema é que o ridículo nem sempre é só ridículo. Às vezes esconde mistérios, ou guarda segredos, o que soa apenas ridículo pode ter significações muito ruins. Estão aí as atitudes de Lula em relação às indagações sobre a tolerância, ou não, do meio ambiente amazônico a duas hidrelétricas no rio Madeira, este personagem belo e assustador na lendária tragédia que foi a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Com a profundidade de visão de que é capaz, a imprensa brasileira vê no conflito entre Lula e o Ministério do Meio Ambiente motivo apenas para mais futricas, a ministra Marina Silva está sendo fritada ou não sai, falam no fulaninho para ministro, o PMDB está de olho no orçamento do Ministério, o PT finge que nunca falou em meio ambiente. Lula passou quatro anos sem falar em hidrelétrica. O segundo mandato não trouxe novidade nenhuma, nem ao menos de ministro, sobre energia elétrica. Apesar disso, de repente Lula tornou-se obsessivo quanto a hidrelétricas no Madeira, fala nisso todos os dias, e quantas vezes possa. Cada vez mais irado. Ora, a menos que sob distúrbio psicológico, o que não consta ser o caso, ninguém se fixaria em um assunto, tanto e tão subitamente, sem motivação objetiva e forte. Há mais do que a alegada preocupação de Lula com a energia elétrica para 2012. Um presidente da República pressionando funcionários de nível médio, seja com que sentido for, é de um ridículo para lá de subdesenvolvido. Nas circunstâncias atuais, vai muito mais longe. Assume aspectos legais e institucionais muito graves: Lula está pressionando funcionários do Ministério do Meio Ambiente e em particular do Ibama, até publicamente, a desrespeitarem ou contornarem a lei. Em negócio cuja estimativa inicial é de R$ 20 bilhões. A legislação do meio ambiente é clara e exige estudos técnicos e científicos, nela bem especificados, para autorizar ou vetar obras que possam ter algum reflexo negativo. Os estudos para duas hidrelétricas no Madeira são de complexidade extraordinária. As peculiaridades desse rio imenso na extensão e na largura têm, inclusive, implicação em relações internacionais: uma das conseqüências possíveis das duas hidrelétricas é provocar enchentes em território boliviano. Os estudos não estão concluídos e não prometem data de conclusão. Eis o que, a serviço de sua obsessão, disse Lula em discurso na sexta-feira: "Ou nós fazemos as hidrelétricas que temos que fazer, vencendo todos os obstáculos, ou vamos entrar na era da energia nuclear". À parte a sandice da entrada agora na energia nuclear, ou da idéia de apelo ao papa para ajudar na liberação das hidrelétricas, a frase é uma denúncia de propósitos: VENCENDO TODOS OS OBSTÁCULOS. Os obstáculos são a legislação do meio ambiente e os funcionários que a cumprem. A ela e a eles, o presidente da República quer VENCER. E, no caso, só há um meio de VENCER: descumprir a lei pelo necessário ato criminoso e emitir a autorização para as hidrelétricas sem a realização plena dos estudos e conclusões legalmente indispensáveis. É sintomático destes tempos que Lula tenha tais atitudes e propósitos na semana em que o mundo se abala com os relatórios, provenientes da Conferência de Bancoc, sobre a desgraça de que a humanidade se aproxima, levada pela destruição do equilíbrio ambiental.
Escrito por LBeraldo às 12h23
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