RABULARUM - espaço dos rábulas inconformados


Para quem toma decisões em nome dos brasileiros

Do jornal VALOR ECONÔMICO - Por Cyro Andrade | De São Paulo - edição de 21/10/2014

O que deve ler o presidente da República, que seja importante para bem decidir, além de papéis burocráticos e jornais? O Valor pediu a economistas que fizessem sugestões. O resultado está publicado a seguir: 20 livros, numa lista que inclui desde as essenciais 87 páginas de "Brasil - A Construção Interrompida", de Celso Furtado, até "Os Donos do Poder", de Raymundo Faoro, com memoráveis 914 páginas. Ao todo, 7.293 páginas, de clássicos ou não, que, em alguma medida, até podem já ter sido lidas por Dilma Rousseff e Aécio Neves. Só não leram, por certo, "Inflação e Crises - O Papel da Moeda", de Affonso Celso Pastore, indicação de José Julio Senna, ainda não publicado. Pelo visto, não precisariam ler "Capital in the Twenty-First Century": Matías Vernengo mencionou só de passagem o livro de Thomas Piketty, para dizer que "Inequality and Stability", de James K. Galbraith, é "mais coerente". O que não deixa de ser uma sugestão para que leiam os dois (mais 696 páginas, com Piketty).

Nos EUA, é comum o presidente dizer que livros vai ler, ou leu, nas férias de verão. Muita gente acha interessante - também os analistas políticos com inclinação para o sarcasmo. Em 2006, foi muito comentada a revelação de George W. Bush de que tinha lido "O Estrangeiro", de Albert Camus, no qual Mersault, o protagonista, mata um árabe por sentir-se irritado pelo calor.

Aqui, primavera tórrida, não seria a época mais indicada para a presidente Dilma informar sobre suas leituras. Alguém a acusaria de diversionismo, tais o tamanho e a variedade de problemas que aguardam o país em 2015. Aécio correria o mesmo risco.

Mas justamente por isso, sendo assim ruim a perspectiva inescapável, cabe perguntar o que a (o) ocupante do Palácio do Planalto deveria ler, para compreender melhor o terreno em que pisa e sob quais condições de pressão e temperatura precisará tomar suas decisões. Eliana Cardoso, única a recomendar leitura para fruição pessoal, sugere "Uns Contos", de Ettore Bottini, com referência irônica aos "entediantes" relatórios do Banco Mundial, que equipara aos manuais de bem governar do Renascimento, cuja atualidade sutilmente insinua.

O eleito talvez acabe não tendo tempo nem disposição para ler livros como o alentado "Post-Keynesian Economics - New Foundations" (Edward Elgar, 660 págs., 2014), do canadense Marc Lavoie - também não citado, mas indispensável para se compreender o que pensa uma ala dos chamados heterodoxos, no vozerio das disputas no mercado de ideias, e de influência no governo, com outros keynesianos e ortodoxos de várias linhagens.

Assessores poderão sugerir leituras à (ao) chefe. Livros ou resenhas, uma responsabilidade será presidencial: distinguir entre conhecimento útil e inútil ou inconfiável, entre leitura extensa e intensa - nos dois casos, incluindo o que se passa nas cabeças de assessores.

Como diz Peter Burke em "Uma História Social do Conhecimento" (Zahar, 2012), "os artigos nos periódicos especializados têm uma 'expectativa de vida' cada vez menor, especialmente baixa no caso das ciências naturais, média na sociologia ou na economia e um pouco mais alta na história ou na crítica literária". [Não deve ser muito diferente com livros.] Da mesma forma, "temas 'frios' ou fora de moda correm o risco de ser descartados ou marginalizados. Viram 'moedas desvalorizadas'" - o que faz lembrar inflação, assunto presente, de um modo ou de outro, em todas as recomendações de leitura para a (o) presidente.

São os seguintes os 20 livros recomendados:

"Tribunos, Profetas e Sacerdotes - Intelectuais e Ideologias no Século XX", de Bolivar Lamounier.

Indicação de Armando Castelar, coordenador de economia aplicada do Ibre/FGV e professor do IE/UFRJ.

"O ciclo de commodities chega ao fim, ampliando as dificuldades econômicas na América Latina e levando a um aumento do antiliberalismo político (e econômico). Como observa Lamounier, "as ideologias antilberais são epistemológica e moralmente holistas (o todo é mais real e legítimo que as partes - indivíduos e grupos - que o compõem); politicamente autoritárias (divinizam o Estado, o líder e o partido); historicistas (julgam-se detentoras de um conhecimento válido do futuro); anti-institucionalistas (as instituições e normas políticas da democracia liberal têm uma relevância apenas tática); e radicalmente anti-individualistas (novamente o holismo: o indivíduo carece de realidade e de valor moral)". O Brasil precisa se preparar não apenas para resistir a essas tentações como para lidar com vizinhos crescentemente antiberais. O livro de Lamounier nos faz refletir sobre os riscos a evitar para preservar nossa democracia, em toda sua plenitude."

"Chutando a Escada", de Ha-Joon Chang

"O Longo Século XX", de Giovanni Arrighi -

Indicações de Eduardo Strachman, professor da Universidade Estadual Paulista.

"Ha-Joon Chang esclarece o peso do Estado no desenvolvimento dos países, sobretudo nos EUA. Destaca o papel de Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos EUA, um fundador das políticas de proteção e promoção das indústrias nascentes. Normalmente, se conhece muito pouco dos EUA e se acha que toda aquela pujança é fruto de livre-mercado, nas relações daquele país com o exterior, o que é um equívoco em termos de inerpretação histórica.

"Arrighi tem domínio magistral da história em prazos longos (desde os séculos XV e XVI), explicitamente na linha de Fernand Braudel, a quem o autor segue. Mostra o peso dos EUA no mundo moderno, inigualado em qualquer outra época por qualquer outra potência. Para que liberais possam pensar e entender o mundo em que vivem."

"Discurso da Servidão Voluntária", de Étienne de La Boétie"

Indicação de Rodrigo Andrés de Souza Peñaloza, professor da Universidade de Brasília.

"Como é possível que os povos se submetam ao tirano? Essa servidão é um vício inominável, diz Boétie, pois a liberdade "é" a verdade e é o povo que se sujeita e dela desdenha ao julgar ser fácil obtê-la. Ele apresenta duas razões para a servidão voluntária: o hábito e o medo. Surge aqui a causa material da tirania, que é o fato de que seu fundamento não está na força, mas em 6 que apoiam o tirano e corrompem outros 600 e estes outros 6.000, subjugando os súditos uns através dos outros pela corrupção. Boétie termina dizendo que nada é mais contrário a Deus, soberanamente justo e bom, do que a tirania. Eis o "Discurso". Por que o presidente deveria lê-lo? Porque a liberdade não é algo já conquistado e imune de ameaças e porque o líder não deve descuidar da honestidade daqueles que o cercam. Mesmo que de boa índole, será tido como tirano se sob seu guante a corrupção se espalhar como erva daninha e o povo não se sentir verdadeiramente livre para construir, sem medo, uma sociedade justa e perfeita."

"Inflação e Crises: O Papel da Moeda", de Affonso Celso Pastore

"Bandeirantes e Pioneiros", de Vianna Moog

Indicações de José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV.

"Pastore faz um exame profundo das políticas econômicas dos últimos 50 anos, com ênfase nos problemas monetários e de inflação. Sua análise empírica permite separar o que deu certo de medidas geradoras de maus resultados. Leitura indispensável para quem tem pela frente uma montanha de problemas macroeconômicos.

"É grande a contribuição de Vianna Moog ao entendimento de nossa história, ao comparar os anos de formação e as trajetórias de duas sociedades. Nos EUA, os colonos deram as costas à terra de origem, perseguiam ideais de autogoverno e acreditavam no trabalho sistemático. Entre nós, a colonização foi induzida, liderada pelo poder central de outro país, com predomínio da busca do enriquecimento rápido, da grande tacada, traço que ainda hoje persiste."

"Formação Economica do Brasil" e "Brasil - A Construção Interrompida", ambos de Celso Furtado

"Chutando a Escada", de Ha-Joon Chang

"Globalização - Como Fazer Dar Certo", de Joseph Stiglitz

"Os Donos do Poder", de Raymundo Faoro

"Padrões de Desenvolvimento Econômico", do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE)

Indicações de Antonio Correa de Lacerda, professor e coordenador do programa de estudos pós-graduados em economia política da PUC-SP.

"Celso Furtado, porque é um dos maiores interpretes do Brasil, se não o maior, e os dois livros mencionados representam bem sua vasta obra. Chang mostra que os países hoje desenvolvidos adotaram políticas de estimulo e intervenção na economia, embora sugiram hoje o contrário para os outros. Stiglitz faz ótima critica da globalização e de como os países devem se inserir nela. Raymundo Faoro desnuda as estruturas de poder, em visão histórica. O trabalho do CGEE é um ótimo levantamento das estratégias e padrões de desenvolvimento comparado entre grupos de países, importante referência para decisões de política econômica."

"Bancos Centrais - Teoria e Prática" e "After the Music Stopped, ambos de Alan S. Blinder

"Financial Stability and Growth - Perspectives on Financial Regulation and New Developmentalism", de Luiz Carlos Bresser-Pereira, Jan Kregel e Leonardo Burlamaqui (editores)

Indicações de José Luis Oreiro, professor do Instituto de Economia da UFRJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira.

"A parte III de "Bancos Centrais..." trata da questão da independência dos bancos centrais. O autor mostra de que forma a independência do banco central pode ser formatada sem que se comprometa o princípio básico da democracia, qual seja, "todo o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido", ao mesmo tempo que se preserva a autoridade monetária da cooptação pelo sistema financeiro.

"Em "After the Music...", o autor apresenta as razões estruturais da crise financeira de 2008, relacionando-a com a lógica da desregulação e a crença no "auto-ajustamento" dos mercados que prevaleceu nos EUA e no Reino Unido entre o final da década de 1970 e o início dos anos 2000.

"'Financial Stability' é uma coletânea de textos de expoentes da heterodoxia no Brasil e no mundo, como Roberto Frenkel, Jan Kregel, Bresser-Pereira, Robert Boyer, Fernando Cardim de Carvalho, Thomas Palley. Trata-se de lições da crise, com foco na importância da regulação financeira e da manutenção de uma taxa de câmbio competitiva para blindar a economia de choques como o ocorrido em setembro de 2008."

"Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis", de James K. Galbraith.

"State of Innovation - The U. S. Government's Role in Technology Development", de Fred Block e Matthew Keller

"The Second Machine Age", de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee

Indicações de Matías Vernengo, professor da Universidade Bucknell, EUA.

"Galbraith usa os dados sobre salários manufatureiros (da Unido) e mostra um quadro melhor da desigualdade global. Por exemplo, a Índia, que não parece tão desigual nos índices de Gini, fica bem pior nos dados dele, como, de resto, o sentido comum indicaria. Além disso, fica claro que a desigualdade recente está ligada à financeirização e é a principal causa da instabilidade que levou à crise. É um livro mais coerente que o de Thomas Piketty ["O Capital no Século XXI"].

"Block e Keller mostram que há um complexo sistema de inovação tecnológica nos EUA, que permite que o país mantenha vantagem competitiva apesar dos déficits comerciais e da parcial desindustrialização.

"Brynjolfsson e McAfee mostram que estamos diante de um momento de transição, em que tecnologias informáticas e digitais terão efeitos comparáveis ao da maquina a vapor de James Watt. O recado é: menos financeirização, mais política industrial, ou algo assim."

"Auto-Subversão", de Alberto O. Hirschman

"As Ideias de Keynes", de D. E. Moggridge

Indicações de José Roberto Rodrigues Afonso, pesquisador do Ibre/FGV.

"Mesmo sendo dos pensadores mais inquietos e brilhantes do século passado, Hirschman ensina como é importante não se achar o dono da verdade, como confrontar suas teses passadas com os fatos novos e não ter pudor em rever o que antes defendia, explicando porque mudou.

"Para quem acredita que o Brasil não entrou na crise global e, sobretudo, que não sabe como evitar a estagnação da economia, é indispensável voltar a ler Keynes - no original (não os keynesianos que o interpretaram, e muitas vezes erroneamente). Como faltaria tempo para ler uma produção extensa, esse livro de um de seus biógrafos oficiais oferece uma boa e precisa síntese de seu pensamento, em particular para enfrentar as turbulências na economia."

"Uns contos", de Ettore Bottini

Indicação de Eliana Cardoso, economista e escritora

"Escolhi um livro para horas de lazer e não um compêndio do bem governar como, por exemplo, os entediantes relatórios do Banco Mundial, que destilam exemplos e enumeram erros dos quais fugir. Esses manuais são comuns desde tempos imemoriais. Durante o Renascimento, o gênero batizado de "espelho-para-príncipes" orientava o comportamento dos governantes. Os autores retiravam de Sêneca seus preceitos sobre a clemência e a gastança - então chamada liberalidade. Aprendiam com Plutarco a distinguir o amigo verdadeiro do bajulador. Com Cícero, o cumprimento das promessas, alicerce da justiça. "O Príncipe", de Maquiavel, faz parte desse gênero. Inclui a discussão sobre a gastança (capítulo 16), a clemência (capítulo 17), o cumprimento das promessas (capítulo 18), e o trato dos bajuladores (capítulo 23). Alguns dos conselhos subversivos de Maquiavel ficaram famosos. Veja-se a ideia de que o governante deve cumprir uma promessa se, e somente se, cumprir a promessa aumenta seu poder. Maquiavel sabia vender seu peixe, ao contrário do relatório do Banco Mundial, que aborrece o leitor com infindáveis receitas. Longe de mim, um e outro. Também não quero recomendar tomos de história com as lições aprendidas de experiências populistas e corruptas. Definitivamente, não quero maçar o rei. Assim sendo, me contento em escolher um livro que pode deleitar presidentes e homens comuns. Presidentes também têm direito ao descanso e às chaves secretas da ficção. Se as horas de lazer são curtas, um livro de contos é ideal, pois sempre se pode ler um conto de cada vez, carregando o prazer da boa leitura por muitas horas. No livro de Ettore Bottini (1948-2013), brasileiro de Blumenau, as histórias giram em torno de migrações, deslocamentos, viagens, o encontro de gerações, as paisagens rurais. A linguagem contida de fio clássico capricha na minúcia e explora o jargão dos ambientes do turfe, da marinha e da pesca fluvial. Os personagens, pequenos grandes homens, se equilibram na corda bamba da vida. O tempo é o da memória. A reflexão, madura. O prazer, do leitor."




Escrito por LBeraldo às 13h40
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Senhor, anota meu nome e minha matrícula? O lugar esquecido pelos juízes

 

Foto: Gabriel Uchida

Dia de jogo do Brasil e Panamá. Véspera de Copa do Mundo. São 13 horas no CDP III de Pinheiros, onde quatro raios superlotados comportam 1.850 homens. O prédio foi feito, na verdade, para 572 pessoas. É hora do banho de sol e todos estão do lado de fora. Em cada um dos pátios, retângulos menores que uma quadra de salão, os presos jogam futebol num ambiente de Maracanã lotado. Cinco jogadores para cada lado. Os demais 1.810 presos apenas observam. O público é maior do que muitos jogos da maioria dos campeonatos regionais do Brasil.

Eu e mais três colegas, André, Nikolaos e Rafael, pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência da USP, entramos em duas das quadras, acompanhando do padre Valdir João da Silveira, padre Eugênio e Marcelo Naves, da Pastoral Carcerária, para conhecer mais de perto a realidade do sistema penitenciário paulista. Há um misto de tensão e curiosidade na entrada. Qual o efeito que a presença de quatro extraterrestres, chegando do nada, apresentados como estudantes da USP, pode ter naquela massa abandonada?

Descobrimos logo ao entrar. Eu carrego um bloquinho de anotação e uma caneta bic. É o suficiente para seja visto como uma boia jogada ao mar no meio de um naufrágio. Eles vão nos rodeando aos poucos. Bastava demonstrar algum interesse pelas histórias para que começassem uma fila de lamentações. Trajetórias trágicas que quase sempre se repetem, apesar de serem acusados por tipos de crime diferentes. No CDP III, há casos de furto, Lei Maria da Penha, blitz da Lei Seca, crimes sexuais, crimes “famosos” ( tiveram repercussão na imprensa) e com medidas de tratamento (para os que tem problemas psiquiátricos ou cometeram crimes relacionados à dependência – de álcool e/ou outras drogas). O drama da maioria é parecido. Eles viram carne podre na máquina emperrada do judiciário paulista, ineficiente, um castelo de cartas carcomidas, formada por juízes que parecem muito eficazes em superlotar o sistema, mas que não concedem os direitos de progressão e de cumprimento de pena garantidos pelo processo de execução penal. “Apodreçam!” É a sentença.

Em duas horas, foram cerca de 40 histórias. Se ficasse mais tempo, viriam muito mais. Enquanto ouço, eu imagino os juízes de São Paulo, vestidos com suas togas pretas, satisfeitos por serem rigorosos e por criarem uma falsa sensação de segurança ao retirar essas pessoas do convívio e as enviarem para um depósito de gente.  Um jeito tão caro e burro que o Estado tem para produzir pessoas piores. Fico cansado. As togas pretas agora me lembram as imagens dos dementadores, que provocam estados de profunda depressão ao sugar a esperança daqueles com quem entram em contato.

“O senhor pode anotar o meu nome? E a minha matrícula?” Ouço repetidas vezes, antes das histórias começarem. Todos aguardam sua vez. Eu explico que não posso fazer nada. Que eles precisam falar com os defensores, acionar seus familiares, pedir ajuda para quem possa cuidar pessoalmente de cada caso. Mas não adianta. Alguém tem um bloquinho de papel e uma caneta em mãos. E lá vêm eles: se agarram no fiapo de esperança que eu represento. Ainda penso como a esperança talvez seja um dos combustíveis vitais do ser humano. Fechado entre a multidão abandonada, nem eu nem meus colegas sentimos medo. Há no ar uma certa cumplicidade e um autocontrole entre eles próprios. Podemos entrar e sair das celas lotadas e conversar com quem quisermos.

Segundo os relatos, muitos são presos provisórios, como João Carlos, esperando há três anos no CDP pelo julgamento, sonhando com o dia em que será enviado a um presídio. Nos CDPs, quase não há vagas em escolas ou trabalho. A superlotação é a maior do sistema. São 50 pessoas em celas para 12 lugares, com oito camas. Redes nas paredes são proibidas e por isso eles dormem no chão e de lado – a posição se chama facão. O Estado não fornece quase nada e por isso eles dependem dos jumbos trazidos pelas famílias. Os gastos dos familiares com presos no CDP é cerca de R$ 300 mensais. Leva-se papel higiênico, produtos de limpeza, comida, roupas, cobertor etc.

Anoto o telefone da família de Alexandre, preso faz uma semana. Ele veio de Jacareí e seus pais não sabem que ele está preso. “Pede para que eles venham me visitar urgentemente esse domingo. Não tenho cobertor, não tenho nada. Tô passando frio. Na primeira visita é só eles trazerem o RG”, explica. Eu anoto o telefone e me comprometo em dar o recado.

Outro me conta a história de sua prisão em um baile funk na periferia da zona norte. Estuda logística na Fatec e tem cara de nerd, com óculos de armação moderna. No meio do pancadão, foi pego em flagrante pela PM em situação obscena com uma garota de 13 anos. O que é crime, de acordo com a lei. “Veja só minha situação. Uma das letras de um funk famoso diz “novinha vem, novinha vai”. Elas enchem o baile. Fiquei com uma menina e fui condenado. Imagina quantos vão ser preso por isso”, diz. Ele tem razão. É muita hipocrisia. O “sexo ostentação” é popular e aceito socialmente. É tema recorrente das letras de funk, estilo de maior sucesso musical atualmente no Brasil. Mesmo assim, quando o PM o vê com a menina, ele deixa de ser o nerd da Fatec para se tornar mais um “criminoso a lotar do CDP”. Os juízes, claro que condenam. São uma peça na engrenagem nessa linha de produção do encarceramento em massa.

Há presos condenados que deveriam já estar cumprindo pena nos presídios, mas que ficam anos seguidos no CDP. Um grupo de homens pede para que eu faça uma denúncia: eles são 140, condenados em medida de tratamento, que deveriam estar internados no Hospital de Franco da Rocha, mas que seguem no CDP. Quase não há psiquiatras para fazer o exame. Por isso, eles ficam onde não deveriam estar. O funcionário confirma que há 280 presos em medida de tratamento espalhados pelos raios.

Há casos de injustiça que me parecem mais grotescos. Por isso digo ao preso que vou tentar averiguar. Elielton de Santana, matrícula 112.473, me conta que havia cumprido pena até 2004, quando foi colocado em liberdade. Estava fora há dez anos e atualmente trabalhava na Prefeitura de São Paulo, como gari na empresa Provac, que limpa a Feira da Madrugada. Quando foi tirar título de eleitor para votar, faz 15 dias, soube que se nome ainda não havia sido retirado da captura. O que o tornava um foragido. Não sei se é verdade. Os outros presos o apoiam e pedem que eu interceda. Buscarei ajuda da Defensoria Pública. Será que alguém mais pode ajudar? ONGs?

Os gays, transexuais e os travestis na cela 10 falam que não querem ficar separados dos demais presos. Em maio, uma nova resolução feita a pedido da comunidade LGBT determinou que o grupo seja separado nas prisões masculinas. Só que no CDP III, o grupo LGBT discorda. A cela tem cerca de 20 gays, travestis e transexuais. Eles acham que seria descriminação e se dizem respeitados pelos detentos. Querem só dormir em cela separada, o que já ocorre. “Mas o convívio é importante. Não queremos ser segregadas. Vivemos juntos do lado de fora. Não há porque ser diferente aqui dentro. Quem fez o pedido ao Governo, nunca ficou preso”, uma delas, com o corpo e espírito de mulher, me explica.

Tantas histórias que ficarão de fora. Novamente saio com a sensação de que minha entrada de nada vai adiantar e sigo cético com o jornalismo. Será que serve para alguma coisa? Para quase nada. O sistema penitenciário é uma de nossas sombras, que preferimos esconder em um canto escuro do cérebro. Os leitores vão falar que eu defendo direitos de bandidos. Minha sensação é de que estamos seguindo rumo à barbárie. Parece haver muito ódio e pouca reflexão.

Padre Valdir ainda me pede uma ajuda. No Centro Hospitalar do Sistema Prisional, no contrato feito entre o Estado e a Santa Casa para tratar os presos, não foi previsto roupas íntimas. É lá que as grávidas condenadas vão ter seus filhos. Mas não há calcinhas. A Pastoral fez campanhas para arrecadar peças íntimas para elas.  Padre Valdir pede que eu ajude na cobrança dessa demanda junto ao Estado. Meu Deus do Céu! Governador, Secretário, por favor, vocês podem fornecer roupas íntimas para as mulheres grávidas no hospital penitenciário? Quem fez esse convênio? Saio do CDP III com meus colegas. Padre Valdir sugere uma foto do grupo em frente ao local. Tenho a sensação de ter sido sugado horas e horas por um dementador.

O texto original está publicado aqui: http://blogs.estadao.com.br/sp-no-diva/senhor-anota-meu-nome-e-minha-matricula-o-lugar-esquecido-pelos-juizes/




Escrito por LBeraldo às 13h20
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Foi tudo mentira, você não me amou

Por Eliana Cardoso (Publicado no Valor Econômico)

Jorge Luis Borges nomeia bibliotecas e livros imaginários. A invenção tem tradição secular. No segundo volume de "Gargantua e Pantagruel", o herói de François Rabelais descreve a biblioteca de Saint Victor em Paris e lista 140 títulos imaginários, entre os quais "Da Arte de Peidar Polidamente em Sociedade", "A Aparição de Santa Gertrude para uma Freira em Trabalho de Parto", "O Chifrudo na Corte", "A Ratoeira dos Teólogos" e "Cacatorium Medicorum". Os títulos, que escandalizaram o mundo da época, hoje são café pequeno. Numa sociedade que consagra a voz de um garoto de 11 anos a festejar o sexo oral em "Dom Dom Dom", palavrões e escatologia não passam de clichês. Para provocar estranhamento, o escritor precisa de novos engenhos.

A biblioteca de Saint Victor e alguns títulos do catálogo inventado por Rabelais reaparecem em "Baudolino", de Umberto Eco. Não para mencionar temas antes proibidos e, sim, para trazer à baila a invenção e a mentira.

As filosofias por trás dos mundos imaginados por Borges e Baudolino, entretanto, divergem. Borges declara "loucura cansativa e laboriosa escrever volumes vazios para expor em quinhentas páginas uma ideia que, oralmente, poderia ser defendida facilmente em poucos minutos. Melhor fingir que o livro já existe e oferecer apenas um resumo ou comentário".

Por outro lado, Baudolino, o mentiroso máximo da metaficção, enaltece o engodo. A verdade reside no convencimento: aquilo em que acreditamos se torna autêntico, mesmo que não o tenha sido na origem. A invenção comprovada por uma carta falsa vira fato histórico. A astúcia transfigura a impostura e a mentira se mostra sublime ao ocupar o lugar da verdade.

Talvez não tanto quanto Baudolino, o homem comum também mente. Mente mais para si mesmo do que para os outros. A razão, explica Robert Trivers em "Deceit and Self-Deception" (Penguin, 2014, ainda sem tradução em português), reside no fato de que mentir para si mesmo é a melhor maneira de conseguir enganar os outros. O mentiroso mais convincente acredita nos próprios embustes.

Na perspectiva convencional, o autoengano funciona como mecanismo de defesa. Para sobreviver num mundo perigoso onde nos sentimos vulneráveis, as mentiras nos reconfortam como os narcóticos (conceituais ou químicos) e nos ajudam a evitar verdades desagradáveis.

Ao contrário, no livro de Trivers - que aplica a hipótese de que entender as exigências impostas a nossos ancestrais pelo meio ambiente esclarece o funcionamento de nossa mente hoje -, o autoengano tem função estratégica. Por exemplo. O guerreiro podia afugentar o inimigo ao fingir força maior do que a que de fato tinha. Cinco séculos antes de Cristo Sun Tzu refletia esse insight: a habilidade suprema do guerreiro é vencer sem combater. Enganar os outros ajuda a vitória e dá acesso a recursos alheios. E enganando a si próprio, o fingidor se torna mais convincente. Precisa, portanto, acreditar no exagero de sua força e no direito a recursos alheios.

Trivers vê autoengano em toda parte: ele existiria sempre que um equívoco gera uma recompensa. A biologia oferece uma comparação instrutiva ao descrever a anatomia enganosa de algumas plantas. Muitas espécies de orquídeas se assemelham em aparência e cheiro às fêmeas adultas dos insetos que polinizam essas flores. Na falsa cópula, as orquídeas desfrutam da polinização sem pagamento. E, como não há ejaculação, o macho frustrado sente a necessidade de visitar outras plantas. A orquídea engana o inseto, mas não mentiu para ele nem para si mesma. Segundo Trivers, entretanto, poderíamos falar em autoengano, pois o processo do qual ele se ocupa não requer a intenção de mentir, nem precisa ser consciente.

Mas... Como a vítima do logro paga caro quando cai numa armadilha, a mente aprendeu várias técnicas que ajudam a identificar a isca que o outro usa para levar a melhor nessa guerra de contos do vigário. Exagerar o sentimento de autoconfiança e se pavonear nem sempre desencoraja o inimigo, que pode desconfiar da exibição como embuste ou falta de bom senso. Não se deixe iludir! A estratégia tem riscos.

Onde a teologia criacionista vê harmonia beneficente no relacionamento entre as espécies, o evolucionista está preparado para identificar conflitos e manipulação estratégica, na linha dos patologistas do final do século XIX, que já descreviam a relação materna-fetal como um campo de batalha.

E no campo de batalha entre duas pessoas supostamente enamoradas se passa "Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar. O herói tem uma ideia engrandecida de si, como o homem da psicologia evolutiva, que se acredita melhor do que é. Ele exibe seu machismo autoritário e ameaça a parceira - também ela autoritária, embora sob o disfarce das causas sociais. O embate teatral entre os dois personagens dramatiza a colisão destrutiva de autoenganos. Ele manipula as imagens de si mesmo para manter o domínio e traça da namorada a imagem que melhor lhe convém. Nassar nos oferece uma guerra entre autoenganos, pois não há comunicação real entre a imagem que fazemos de nós mesmos e a que inventamos para vestir o outro.

Existem três movimentos em "Um Copo de Cólera". No primeiro, o homem chega à sua chácara onde a namorada o aguarda. Ele prolonga o tempo até levá-la para a cama e seu fluxo de consciência revela o macho convencido do próprio poder de sedução. Na cama e no banho, mergulhado na autocontemplação, provoca a companheira, alienado do próprio desejo.

No segundo movimento, amanhece. A cerca viva que circunda a chácara tem buracos de formigas. No isolamento imperfeito da chácara lemos a armadura frágil do macho. A defesa não resiste ao inimigo que se infiltra na forma das saúvas. O inimigo está dentro de nós.

Não podendo controlar as saúvas, ele perde o controle de si próprio. Irrita-se, profere palavrões, ataca o formigueiro. A namorada ironiza a operação e ele se volta contra ela. A guerra verbal ocorre com crescente agressividade. Tendo bebido seu copo de cólera - como as saúvas, o formicida - ele está tomado de ódio.

Os amantes se entregam a um bate-boca violento em golfadas de insultos. Alternam duas visões antagônicas do mundo em embate intelectual que a ditadura dos anos 70 reprimia. Ele defende a individualidade anárquica. Ela o acusa de fascista e emite os discursos cristalizados da modernidade, da liberação, do marxismo. Ele também a acusa de fascista. Ambos internalizam o discurso do poder e usam as armas da linguagem contra a insatisfação gerada tanto pelo próprio discurso quanto pela tentativa de dominação do outro. Na briga do casal, além do desacerto romântico, fica fácil ver o retrato da época da ditadura, colorido pela violência e borrado pelo conflito entre as ideias que circulavam entre os intelectuais de então.

A cólera que ele sente começa de forma espontânea e passa a ser manipulada para destruir a antagonista. Quando o ataque verbal se torna insuficiente, ele usa o corpo. A agressão se transforma em promessa de sexo. Na troca sadomasoquista, o sádico termina por rejeitar a masoquista e descreve o total aviltamento de sua vítima: "Eu via a sua cara de espanto, a tartaruga livre e desenvolta a quem eu tinha devolvido o peso e a tortura da carapaça. Reduzi seu tempo de reação a uma agonia". Ela desmorona com a humilhação e se vai. Ele sente que a destruiu. E destruído fica, derrubado ao chão. O leitor não sabe se aquilo que o abateu foi o desgaste da violência ou o entendimento da própria canalhice.

No terceiro e último movimento, o autor muda o foco do homem para o da mulher. Na linha de Borges e Eco, essa mudança sugere que o dono do discurso controla a verdade que, aqui, parece não estar com ninguém. A mulher volta à chácara e encontra o homem deitado na cama em posição fetal. Não seria a primeira vez que ela se prestaria aos caprichos dele. Sente-se inundada por uma vertigem de ternura. Reproduzindo o título do primeiro capítulo, o último fecha o ciclo e sugere que a história irá se repetir. Quem não aprende, repete.

Eliana Cardoso, economista e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente.

E-mail: eliana.500@outlook.com



Escrito por LBeraldo às 17h58
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O site Migalhas.com.br comprou uma briga com o ainda presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Ivan Sartori, tanto que obteve medida liminar no CNJ para retirar do site do TJ um lamento de seu presidente acerca da perseguição que vem sofrendo por parte de órgãos da imprensa. O site e seus dirigentes têm todo direito de criticar atos do chefe do Judiciário paulista e até de recorrer ao CNJ ou ao próprio Judiciário caso se sinta ofendido ou ameaçado em seus direitos. NÃO tem, no entanto, o direito de provocar o desembargador tratando-o por sr. Ivan. Isso é coisa de pseudo imprensa... passada de marrom a preta... que peninha!



Escrito por LBeraldo às 15h14
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O enigma das elites - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

 


 Lula saiu do povo e não voltou mais. Anda com bilionários, exige jato particular para ir às suas conferências e Johnnie Walker Rótulo Azul no cardápio de bordo



A elite brasileira é acusada todo santo dia pelo ex-presidente Lula de ser a inimiga número 1 do Brasil - uma espécie de mistura da saúva com as dez pragas do Egito, e culpada direta por tudo o que já aconteceu, acontece e vai acontecer de ruim neste país. É possível até que tenha razão, pois se há alguma coisa acima de qualquer discussão é a inépcia, a ignorância e a devastadora compulsão por ganhar dinheiro do Erário que inspiram há 500 anos, inclusive os últimos dez e meio, a conduta de quem manda no país, dentro e fora do governo. O diabo do problema é que jamais se soube exatamente quem é a elite que faz a desgraça do Brasil. Seria indispensável saber: sabendo-se quem é a elite, ela poderia ser eliminada, como a febre amarela, e tudo estaria resolvido. Mas continuamos não sabendo, porque Lula e o PT não contam. Falam do pecado, mas não falam dos pecadores; até hoje o ex-presidente conseguiu a mágica de fazer discursos cada vez mais enfurecidos contra a elite, sem jamais citar, uma vez que fosse, o nome, sobrenome, endereço e CPF de um único de seus integrantes em carne e osso. Aí fica difícil.

Mas a vida é assim mesmo, rica em perguntas e pobre em respostas; a única saída é partir atrás delas. Na tarefa de descobrir quem é a elite brasileira, seria razoável começar por uma indagação que permite a utilização de números: as elites seriam, como Lula e o PT frequentemente dão a entender, os que votam contra eles nas eleições? Não pode ser. Na última vez em que foi possível medir isso com precisão, no segundo turno das eleições presidenciais de 2010, cerca de 80 milhões de brasileiros não quiseram votar na candidata de Lula, Dilma Rousseff: num eleitorado total pouco abaixo dos 136 milhões de pessoas, menos de 56 milhões votaram nela. É gente que não acaba mais. Nenhum país do mundo, por mais poderoso que seja, tem uma elite com 80 milhões de indivíduos. Fica então eliminada, logo de cara, a hipótese de os inimigos da pátria serem os brasileiros que não votam no PT.

As elites seriam os ricos, talvez? De novo, não faz sentido: os ricos do Brasil não têm o menor motivo para se queixar de Lula, dos seus oito anos de governo ou da atuação de sua sucessora. Ao contrário, nunca ganharam tanto dinheiro como nos últimos dez anos, segundo diz o próprio Lula. Ninguém foi expropriado sequer em 1 centavo, ou perdeu patrimônio, ou ficou mais pobre em conseqüência de qualquer ato direto do governo. Os empresários vivem encantados, na vida real, com o petismo; um dos seus maiores orgulhos é serem "chamados a Brasília" ou alcançarem a graça máxima de uma convocação da presidente em pessoa. No puro campo dos números, também aqui, não dá para entender como os ricos possam ser a elite tão amaldiçoada por Lula e seus devotos. De 2003 para cá, o número de milionários brasileiros (gente que tem pelo menos 2 milhões de reais, além do valor de sua residência) só aumentou. Na verdade, segundo estimativas do consórcio Merrill Lynch Capgemini, apoiado pelo Royal Bank of Canada e tido como o grande perito mundial na área, essa gente vem crescendo cada vez mais rápido. Pelos seus cálculos, surgem dezenove novos milionários por dia no Brasil, o que dá quase um por hora, ou cerca de 7 000 por ano; em 2011, o último período medido, o Brasil foi o país que teve o maior crescimento de HNWIs - no dialeto dos pesquisadores, "High Net Worth Individuais", ou "milionários". O resultado é que há hoje no Brasil 170 000 HNWIs - os 156 000 que havia no levantamento de 2011 mais os 14 000 que vieram se somar a eles, dentro da tal conta dos dezenove milionários a mais por dia.

Não dá para entender bem essa história. O número de milionários brasileiros, após dez anos de governo popular, não deveria estar diminuindo, em vez de aumentar? Deveria, mas não foi o que aconteceu. A sempre citada frota de helicópteros de São Paulo, com 420 aparelhos, é a segunda maior do mundo; no Brasil já são quase 2000, alugados por até 3 000 reais a hora. Os 800 000 brasileiros, ou pouco mais, que estiveram em Nova York no ano passado foram os turistas estrangeiros que mais gastaram ali: quase 2 bilhões de dólares. Na soma total de visitantes, só ficaram abaixo de canadenses e ingleses - e seu número, hoje, é dez vezes maior do que era dez anos atrás, início da era Lula. O eixo formado pela Avenida Europa, em São Paulo, é um feirão de carros Maserati, Lamborghini, Ferrari, Aston Martin, Rolls-Royce, Bentley, e por aí afora. Então não podem ser os ricos os cidadãos que formam a elite brasileira - se fossem, estariam sendo combatidos dia e noite, em vez de viverem nesse clima de refrigério, luz e paz.

Um outro complicador são as ligações de Lula com a nossa vasta armada de HNWIs, como diriam os rapazes da Merrill Lynch. É um mistério. Como ele consegue, ao mesmo tempo, ser o generalíssimo da guerra contra as elites e ter tantos amigos do peito entre os mais óbvios arquiduques dessa mesmíssima elite? Ou será que bilionários e outros potentados deixam de ser da elite e recebem automaticamente uma carteirinha de "homem do povo" quando viram amigos do ex-presidente? Para ficar num exemplo bem fácil de entender, veja-se o caso do ex-governador de Mato Grosso Blairo Maggi, uma das estrelas do círculo de amizades políticas de Lula. O homem é o maior produtor individual de soja do mundo, e a extensão das suas terras o qualifica como o suprassumo do "latifundiário" brasileiro. É detentor, também, do título de "Motosserra de Ouro", dado anos atrás pelo Greenpeace - grupo extremista e frequentemente estúpido, mas que ainda faz a cabeça de muita gente boa pelo mundo afora. É claro que não há nada de errado com Blairo: junto com seu pai, André, fundador da empresa hoje chamada Amaggi, é um dos heróis do progresso do Brasil Central e da transformação do país em potência agrícola mundial. Mas, se Blairo Maggi não é elite em estado puro, o que seria? Um pilar das massas trabalhadoras do Brasil? Lula anda de mãos dadas com Marcelo Odebrecht, presidente de uma das maiores empreiteiras de obras do Brasil e do vasto complexo industrial que crescerem torno dela. Ainda há pouco foi fotografado em companhia do inevitável Eike Batista, cuja fortuna acaba de desabar para meros 10 bilhões de dólares, numa visita a um desses seus empreendimentos que nunca decolam; foi seu advogado, logo em seguida, para conseguir-lhe um ajutório do governo. É um fato inseparável de sua biografia, desde o ano passado, o beija-mão que fez a Paulo Maluf, hoje um aliado político com direito a pedir cargos no governo - assim como Maggi, que ainda recentemente foi cotado para ser nada menos, que o ministro da Agricultura de Dilma. Dize-me com quem andas e eu te direi quem andas e te direi quem és, ensina o provérbio.   Talvez não dê, só por aí, para saber quem é realmente Lula. Mas, com certeza, está bem claro com quem ele anda.

As classes que Lula e o PT descrevem  a "elite brasileira" não são suas amigas só de conversa - estão sempre prontas para abrir o bolso e encher de dinheiro a companheirada. Nas últimas eleições presidenciais, presentearam a candidata oficial Dilma Rousseff quase 160 milhões de reais - mais do que deram a todos os outros candidatos somados. Há de tudo nesses amigos dos amigos: empreiteiros de obras, é claro, banqueiros de primeira, frigoríficos empenhados até a alma no BNDES, siderúrgicas, fábricas de tecidos, indústrias metalúrgicas, mineradoras. É o que a imprensa gosta de chamar de "pesos-pesados do PIB". Ninguém, nessa turma, faz mais bonito que as empreiteiras, que dependem do Tesouro Nacional como nós dependemos do ar. Foram as maiores doadoras privadas às eleições municipais do ano passado: torraram ali quase 200 milhões de reais, e o PT foi o partido que mais recebeu. Ficou com cerca de 30% da bolada distribuída pelas quatro maiores empreiteiras do país, e junto com seu grande sócio da "base aliada", o PMDB, raspou metade do dinheiro colocado nesse tacho. Todo mundo sabe quem são: Andrade Gutierriz, Queiroz Galvão, OAS e Camargo Corrêa. Mas esses nomes não resolvem o enigma que continua a ocultar a identidade dos membros da elite. Com certeza, nenhum dos quatro citados acima pertence a ela, já que dão tanto dinheiro assim ao ex-presidente, seu partido e seus candidatos. Devem ser, ao contrário, a vanguarda classes populares.

Restariam como membros da elite, enfim "inconformados" com o fato de que "um operário chegou à Presidência" ou que a "classe melhorou de vida. Mais uma vez, não dá para levar a sério. Por que raios essa gente toda está inconformada, se não perdeu nada com isso? Qual diferença prática lhes fez a eleição de presidente de origem operária, ou por que sofreriam vendo um trabalhador viajar de avião? Num país com 190 milhões de habitantes, é óbvio há muita gente que detesta o ex-presidente, ou simplesmente não gosta dele. E daí? Que lei os obriga a gostar? Acontece com qualquer grande nome da política, em qualquer lugar do mundo.  Ainda outro dia, milhares de pessoas foram às ruas de de Londres para festejar alegremente a morte da ex-líder britânica Margaret Thatcher - que já não estava mais no governo havia 23 anos. É a vida. Por que Lula e seus crentes não se conformam com isso e param de encher a paciência dos de outros com sua choradeira sem fim? O resumo dessa ópera é uma palavra só: hipocrisia. Lula bate tanto assim na "elite" para esconder o fato de que ele é hoje, na vida real, o rei da elite brasileira. O ex-presidente diz o tempo todo que saiu do povo. De fato, saiu - mas depois que saiu não voltou nunca mais. Falemos sério: ninguém consegue viver todos os dias como rico, viajar como rico, tratar-se em hospital de rico, ganhar como rico (200 000 reais por palestra, e já houve pagamentos maiores), comer e beber como rico, hospedar-se em hotel de rico e, com tudo isso, querer que os outros acreditem que não é rico. Lula exige jato particular para ir às suas conferências e Johnnie Walker Rótulo Azul no cardápio de bordo. Quando tem problemas de saúde, interna-se no Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, um dos mais caros do mundo. Sempre chega ali de helicóptero. Vive cercado por um regimento de seguranças que só o típico magnata brasileiro costuma ter. O ex-presidente sempre comenta que só faIam dessas coisas porque "não admitem" que um "operário" possa desfrutar delas. Mas onde está o operário nisso tudo? É como se o banqueiro Amador Aguiar, que foi operário numa gráfica do interior de São Paulo e ali perdeu, exatamente como Lula, um dos dedos num acidente com a máquina que operava, continuasse dizendo, sentado na cadeira de presidente do Bradesco, que era um trabalhador manual.

Lula não trabalha, não no sentido que a palavra "trabalho" tem para o brasileiro comum, desde os 29 anos de idade, quando virou dirigente sindical e ganhou o direito legal de não comparecer mais ao serviço. Está a caminho de completar iria 68 e, depois que passou a fazer política em tempo integral, nunca mais tomou um ônibus, fez uma fila ou ficou sem dinheiro no fim do mês. Melhor para ele, é claro. Mas a vida que leva é um igualzinha à de qualquer cidadão da elite. O centro da questão está aí, e só aí. Todo o resto é puro conto do vigário.



Escrito por LBeraldo às 15h53
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ENTREVISTA DE JOSÉ NÊUMANE PINTO AO JORNAL "O GLOBO" - 30/08/2011

O GLOBO: Qual a maior revelação que o livro traz?
JOSÉ NÊUMANNE PINTO: É que o Lula não é de esquerda, é um conservador e grande conciliador.


O GLOBO: Além de dizer que Lula nunca foi de esquerda, o senhor questiona o mito em que ele se tra...nsformou. O que o fez chegar a essa conclusão?
NÊUMANNE: Isso não é uma opinião. Eu mostro isso com episódios. Entre 1978 e 1979 eu fui procurado pelo Claudio Lembo, presidente da Arena na época, porque ele tinha uma missão. O general Golbery do Couto e Silva queria fazer a volta dos exilados e queria apoio do Lula. A reunião foi em um sítio do sindicato e lá eu ouvi o Lula dizer: Dr Claudio, fala para o general que eu não entro nessa porque eu quero que esses caras se danem. Os caras estão lá tomando vinho e vêm para cá mandar em nós? O Lula falava que a igreja tinha 2 mil anos de dívidas com a classe trabalhadora e que não resolveria em dois anos. Com os estudantes dizia que poderia fazer um pacto: eles não encheriam o saco do sindicato e o sindicato não encheria o deles. Isso tudo eu vi, ninguém me contou. Ele é um conservadoraço. Nunca foi revolucionário.


O GLOBO:Mas e a história dele com o PT?
NÊUMANNE: Eu costumo usar a seguinte imagem para ilustrar a história da esquerda na vida dele. Pense numa cebola. O núcleo da cebola é o homem. O resto é casca ideológica e política construída ao longo do tempo. O meu objetivo era descascar essa cebola e chegar ao homem, porque eu acho que o segredo do sucesso do Lula é a condição humana dele, a origem, o ambiente familiar, a carreira no sindicato e, sobretudo, dois talentos, que não têm nada a ver com ideologia. O primeiro é o talento que ele tem de se comunicar. O segundo é que Lula é o maior de todos os conciliadores da história do Brasil. O Lula conseguiu um milagre. Quando eu conheci o Lula se falava muito que a esquerda brasileira só se reunia na cadeia, porque eram todos inimigos. E o Lula foi o primeiro cara que uniu a esquerda mesmo sem ser de esquerda.


O GLOBO: Qual dessas caraterísticas é, na sua opinião, a responsável por torná-lo, como o sr. diz, o maior político do Brasil?
NÊUMANNE: Ele é o maior político brasileiro e eu não considero isso necessariamente um elogio. Você sabe o que é o político brasileiro? É o cara que faz qualquer coisa para ficar no poder e isso é o Lula. A primeira vez que eu usei essa expressão o Serra (ex-governador José Serra) me chamou e disse que Getúlio Vargas era o maior político que o país havia tido. Eu falei: Serra, o Getúlio meteu uma bala no peito por causa de uma corrupçãozinha por causa de um segurança do pai dele. O Lula administrou uma quadrilha chamada mensalão e a oposição não tem um cara para enfrentá-lo na eleição. Nunca houve um conciliador como Lula.


O GLOBO: Isso foi aprendido ou é inato?
NÊUMANNE: É inato e foi desenvolvido. Quando eu conheci o Lula ele não tinha noção desses talentos. Nas primeiras entrevistas que eu fiz com ele na época do sindicato ele era terrível, despreparado. Eu fui vendo, aos poucos, ele se transformar num cara genial, no meu melhor entrevistado. O talento de conciliador ele descobriu no bar da Tia Rosa, em frente ao sindicato em São Bernardo do Campo, onde fazia as negociações quando sindicalista. O PT que Lula fundou é a soma dos sindicalistas autênticos, a Igreja progressista e a esquerda armada.


O GLOBO: Todos esses setores tinham como plano usá-lo para chegar ao poder, mas foi ele quem acabou usando todos eles?
NÊUMANNE: Eu defendo isso no livro. Primeiro o Golbery pensou que ia dominar o Lula. A igreja tentou usá-lo, mas na primeira oportunidade ele jogou a esquerda para escanteio ao escolher o José Alencar para vice, representante de um partido evangélico.


O GLOBO: E o ex-ministro José Dirceu?
NÊUMANNE: O Lula usou o Zé Dirceu. O PT era esfacelado e o Lula não tinha domínio sobre o PT. O Zé Dirceu é quem tinha e deu o domínio a Lula. Primeira chance que ele teve, despachou o Zé Dirceu. Eu sempre achei que o projeto do Lula era o Palocci (ex-ministro da Fazenda na gestão Lula).


O GLOBO: O senhor diz que Lula não mudou tanto nesses quase 40 anos, contrariando o que diz o próprio. Em que ele continua o mesmo?
NÊUMANNE: Apesar de ele dizer que é uma metamorfose ambulante, ele não mudou. Ele usa os mesmos métodos. No palanque nos tempos do sindicalismo a primeira coisa que eu aprendi foi o método dele. Ele botava dois companheiros para defender teses diferentes. Um a favor de manter a greve e o outro contra. Ele olhava a reação do povo e decidia. Esse é o cara que colocou Dirceu versus Palocci. Ele governa na cizânia. Ele tem a sabedoria ancestral de dividir para reinar. Um repórter da revista Playboy perguntou a ele quais eram as duas maiores personalidades do século 20? Ele disse Gandhi e Hitler. Um pacifista e um assassino. Isso é ele.


O GLOBO: Você acredita que ele voltará a disputar a Presidência?
NÊUMANNE: Cada dia mais eu me convenço de que esse é o plano dele.


O GLOBO: Há algo que você sabe sobre Lula e não está no livro?
NÊUMANNE: Tem coisas que não dá para contar. Tem coisas que eu não posso provar e, se escrevo, ou vou para a cadeia ou tomo um tiro.



Escrito por LBeraldo às 13h10
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DO BLOG DO REINALDO AZEVEDO

22/08/2011

Lula liquidou Marta com a ligeireza de quem tira um cisco da roupa; vem aí o leninista de família…

Luiz Inácio Apedeuta da Silva liquidou a candidatura de Marta Suplicy (PT-SP) à Prefeitura de São Paulo assim como quem esmaga um piolho ou se livra de um cisco na roupa. É visível que ela não tem disposição nem subjetiva nem objetiva de enfrentar o “coroné”, o dono do partido.

Lula quer Fernando Haddad disputando o cargo. Eis aí uma evidência do que chamam “modernidade” da candidatura à Prefeitura de São Paulo do atual ministro da Educação. Vai ser o nome do partido na base do dedaço. Será porque Lula quer e ponto final. A operação está dando certo. O nome de Haddad já foi adotado por todos os colunistas de esquerda da imprensa paulistana — e quase todos eles são de esquerda…

A situação de Marta, que já era muito difícil tendo Lula como adversário interno, piorou muito depois que Mário Moyses, seu braço-direito, foi preso pela Operação Voucher, da Polícia Federal. No petismo, acham que a candidatura foi ferida de morte. Não que sua vida fosse ser muito fácil caso decidisse enfrentar o Babalorixá de Banânia. Agora, dá-se internamente a situação por liquidada.

Haddad, o trapalhão mais superfaturado do petismo, será vendido como a renovação da política paulista — ou, mais especificamente, paulistana. É um petista legítimo. Poucos encarnam como ele a mistificação do partido e sabem fabricar números fantasiosos para seduzir incautos, como se verá ainda hoje neste blog. Nunca antes na história destepaiz alguém criou tantas universidades virtuais como Haddad.

Lula leva a sério a máxima de que o primeiro dever do estadista é a traição. O esmagamento público a que Marta está sendo submetida pelo lulismo é a forma como a máquina trata “alguém de dentro” que decidiu resistir à vontade do chefe. Imaginem quando eles decidem destruir a reputação de quem não é da turma…

Vem por aí o bom moço, o leninista de família, com cara de bom genro. A tese é a seguinte: se Lula conseguiu emplacar Dilma, então elege quem bem entender. A ver.

Por Reinaldo Azevedo



Escrito por LBeraldo às 21h03
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FOLHA DE SÃO PAULO - 21/08/2011

Classe "A gargalhada" foge dos critérios tradicionais

Publicitários usam alcunha para quem tem renda individual acima de R$ 50 mil

Pelo Critério Brasil, referência no mercado, o topo da pirâmide tem renda familiar superior a R$ 11,48 mil


MARIANA BARBOSA
DE SÃO PAULO

Os muito muito ricos escapam dos critérios de classificação de renda usados por institutos de pesquisa.
Para suprir essa carência, publicitários, marqueteiros e pesquisadores inventaram uma nova categoria, bem acima da tradicional classificação de classes A, B, C, D e E: a classe A gargalhada.
A alcunha não vem da máxima de que rico ri à toa. É onomatopeico: AAA.
E, por ser informal, a definição da renda dos "triple A", para usar o jargão do mercado financeiro, depende do interlocutor.
Para Antonio Fadiga, sócio da agência Fischer & Friends, a classe AAA tem pelo menos dois carros importados na garagem, casa na praia ou no campo e renda individual acima de R$ 50 mil.
"Hoje você fala em classe A e pensa no cara que tem carro zero na garagem, viaja para o exterior, tem filho na faculdade e um negócio", diz Fadiga.
"Mas e se o carro é um 1.0, a viagem foi de pacote para o Paraguai, a faculdade custa R$ 400 e o negócio é um mercadinho? Aí você está falando do 'seu' Tião."
Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, a A gargalhada tem um caráter emergente: bolso de classe A e cabeça de classe C.
"É o sujeito que tinha um mercadinho e hoje tem uma rede de supermercado. Gosta de cores primárias, Ferrari amarela. São essas pessoas que movem hoje o mercado de luxo."

CRITÉRIO BRASIL

"A A gargalhada está tão distante do resto da sociedade que nem entra nos critérios existentes de pesquisa", diz a publicitária Cristina Freire, consultora de planejamento estratégico.
Pelo chamado Critério Brasil (CB), definido pela Abep (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa), o topo da pirâmide, a classe A1, tem renda familiar superior a R$ 11,48 mil. Mais ou menos o preço de um relógio Cartier ou de um terninho Armani.
O CB define as classes com base na posse de bens, quantidade de banheiros, escolaridade do chefe de família e se tem empregada mensalista ou não.
Hoje, porém, 68% dos jovens da classe C estudaram mais do que os pais. E ter computador e celular (itens não incluídos no CB) hoje diz mais sobre o consumidor do que a posse de um rádio.
"A proliferação do crédito acabou com o Critério Brasil", diz Meirelles. "O critério é uma pesquisa séria. Mas, como todo critério, é arbitrário."
Ainda que defasado, o CB continua sendo a principal referência para anunciantes e publicitários definirem a compra de mídia (espaço publicitário).
A Folha procurou a Abep, que não quis dar entrevista. Meirelles defende o estabelecimento de outro critério, diferente também do critério de renda familiar do IBGE, para dar conta das mudanças socioeconômicas que estão ocorrendo no país: a renda per capita familiar.
"A renda familiar não distingue uma família de duas pessoas de uma de seis pessoas", diz Meirelles, que está contribuindo para o desenvolvimento de um novo critério de classificação socioeconômica para a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.



Escrito por LBeraldo às 22h22
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Jornal O Estado de São Paulo - 11/08/2011

A corrupção na Justiça

11 de agosto de 2011

O Estado de S.Paulo

Elaborado com base nas inspeções feitas pela Corregedoria Nacional de Justiça e divulgado pelo jornal Valor, o relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre as irregularidades cometidas pela magistratura nas diferentes instâncias e braços especializados do Judiciário mostra que a instituição pouco difere do Executivo em matéria de apropriação indébita e malversação de dinheiro público, de mordomia, nepotismo e fisiologismo, de corrupção, enfim. As maracutaias são tantas que é praticamente impossível identificar o tribunal com os problemas mais graves.

Em quase todos, os corregedores do CNJ constataram centenas de casos de desvio de conduta, fraude e estelionato, tais como negociação de sentenças, venda de liminares, manipulação na distribuição de processos, grilagem de terras, favorecimento na liberação de precatórios, contratos ilegais e malversação de dinheiro público.

No Pará, o CNJ detectou a contratação de bufês para festas de confraternização de juízes pagas com dinheiro do contribuinte. No Espírito Santo, foram descobertos a contratação de um serviço de degustação de cafés finos e o pagamento de 13.º salário a servidores judiciais exonerados. Na Paraíba e em Pernambuco, foram encontradas associações de mulheres de desembargadores explorando serviços de estacionamento em fóruns.

Ainda em Pernambuco, o CNJ constatou 384 servidores contratados sem concurso público - quase todos lotados nos gabinetes dos desembargadores. No Ceará, o Tribunal de Justiça foi ainda mais longe, contratando advogados para ajudar os desembargadores a prolatar sentenças. No Maranhão, 7 dos 9 juízes que atuavam nas varas cíveis de São Luís foram afastados, depois de terem sido acusados de favorecer quadrilhas especializadas em golpes contra bancos.

Entre as entidades ligadas a magistrados que gerenciam recursos da corporação e serviços na Justiça, as situações mais críticas foram encontradas nos Tribunais de Justiça da Bahia e de Mato Grosso e no Distrito Federal, onde foi desmontado um esquema fraudulento de obtenção de empréstimos bancários criado pela Associação dos Juízes Federais da 1.ª Região. Em alguns Estados do Nordeste, a Justiça local negociou com a Assembleia Legislativa a aprovação de vantagens funcionais que haviam sido proibidas pelo CNJ. Em Alagoas, foi constatado o pagamento em dobro para um cidadão que recebia como contratado por uma empresa terceirizada para prestar serviços no mesmo tribunal em que atuava como servidor.

O balanço das fiscalizações feitas pela Corregedoria Nacional de Justiça é uma resposta aos setores da magistratura que mais se opuseram à criação do CNJ, há seis anos. Esses setores alegavam que o controle externo do Judiciário comprometeria a independência da instituição e que as inspeções do CNJ seriam desnecessárias, pois repetiriam o que já vinha sendo feito pelas corregedorias judiciais. A profusão de irregularidades constatadas pela Corregedoria Nacional de Justiça evidenciou a inépcia das corregedorias, em cujo âmbito o interesse corporativo costuma prevalecer sobre o interesse público.

Por isso, é no mínimo discutível a tese do presidente do STF, Cezar Peluso, de que o CNJ não pode substituir o trabalho das corregedorias e de que juízes acusados de desvio de conduta devem ser investigados sob sigilo, para que sua dignidade seja preservada. "Se o réu a gente tem de tratar bem, por que os juízes têm de sofrer um processo de exposição pública maior que os outros? Se a punição foi aplicada de um modo reservado, apurada sem estardalhaço, o que interessa para a sociedade?", disse Peluso ao Valor.

Além de se esquecer de que juízes exercem função pública e de que não estão acima dos demais brasileiros, ao enfatizar a importância das corregedorias judiciais, o presidente do STF relega para segundo plano a triste tradição de incompetência e corporativismo que as caracteriza. Se fossem isentas e eficientes, o controle externo da Justiça não teria sido criado e os casos de corrupção não teriam atingido o nível alarmante evidenciado pelo balanço da Corregedoria Nacional de Justiça.



Escrito por LBeraldo às 20h29
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Folha de São Paulo - 18/07/2011

LUIZ FELIPE PONDÉ

A tentação totalitária


Primeiro vem a certeza de si mesmo como agente do "bem total", depois você vira autoritário em nome dele



VOCÊ SE considera uma pessoa totalitária? Claro que não, imagino. Você deve ser uma pessoa legal, somos todos.
Às vezes, me emociono e choro diante de minhas boas intenções e me pergunto: como pode existir o mal no mundo? Fossem todos iguais a mim, o mundo seria tão bom... (risadas).
Totalitários são aqueles skinheads que batem em negros, nordestinos e gays.
Mas a verdade é que ser totalitário é mais complexo do que ser uma caricatura ridícula de nazista na periferia de São Paulo.
A essência do totalitarismo não é apenas governos fortes no estilo do fascismo e comunismo clássicos do século 20.
Chama minha atenção um dado essencial do totalitarismo, quase sempre esquecido, e que também era presente nos totalitarismos do século 20.
Você, amante profundo do bem, sabe qual é? Calma, chegaremos lá.
Você se lembra de um filme chamado "Um Homem Bom", com Viggo Mortensen, no qual ele é um cara legal, um professor universitário não simpatizante do nazismo (o filme se passa na Alemanha nazista), e que acaba sendo "usado" pelo partido?
Pois bem. Neste filme, há uma cena maravilhosa, entre outras. Uma cena num parque lindo, verde, cheio de árvores (a propósito, os nazistas eram sabidamente amantes da natureza e dos animais), famílias brincando, casais se amando, cachorros correndo, até parece o Ibirapuera de domingo.
Aliás, este é um dos melhores filmes sobre como o nazismo se implantou em sua casa, às vezes, sem você perceber e, às vezes, até achando legal porque graças a ele (o partido) você arrumaria um melhor emprego e mais estabilidade na vida.
Fosse hoje em dia, quem sabe, um desses consultores por aí diria, "para ter uma melhor qualidade de vida".
E aí, a jovem esposa do professor legal (ele acabara de trocar sua esposa de 40 anos por uma de 25 -é, eu sei, banal como a morte) o puxa pelo braço querendo levá-lo para o comício do partido que ia rolar naquele domingão no parque onde as famílias iam em busca de uma melhor qualidade de vida.
Mas ele não tem nenhuma vontade de ir para o comício porque sente um certo "mal-estar" com aquilo tudo. Mas ela, bonita, gostosa, loira, jovem e apaixonada (não se iluda, um par de pernas e uma boca vermelha são mais fortes do que qualquer "visão política de mundo"), diz: "meu amor, tanta gente junta querendo o bem não pode ser tão mal assim".
É, meu caro amante do bem, esta frase é uma das melhores definições do processo, às vezes invisível, que leva uma pessoa a ser totalitária sem saber: "quero apenas o bem de todos".
Aí está a característica do totalitarismo que sempre nos escapa, porque ficamos presos nas caricaturas dos skinheads: aquelas pessoas, sim, se emocionavam e choravam diante de tanta boa vontade, diante de tanta emoção coletiva e determinação para o bem.
Esquecemos que naqueles comícios, as pessoas estavam ali "para o bem".
Se você tem absoluta certeza que "você é do bem", cuidado, um dia você pode chorar num comício achando que aquilo tudo é lindo e em nome de um futuro melhor.
E se essa certeza vier acompanhada de alguma "verdade cientifica" (como foi comum nos totalitarismos históricos) associada a educadores que querem "fazer seres humanos melhores" (como foi comum nos totalitarismos históricos) e, finalmente, se tiver a ambição política, aí, então, já era.
Toda vez que alguém quiser fazer um ser humano melhor, associando ciência (o ideal da verdade), educação (o ideal de homem) e política (o ideal de mundo), estamos diante da essência do totalitarismo.
O que move uma personalidade totalitária é a certeza de que ela está fazendo o "bem para todos", não é a vontade de destruir grupos diferentes do dela.
Primeiro vem a certeza de si mesmo como agente do "bem total", depois você vira autoritário em nome desse bem total.
O melhor antídoto para a tentação do totalitarismo não é a certeza de um "outro bem", mas a dúvida acerca do que é o bem, aquilo que desde Aristóteles chamamos de prudência, a maior de todas as virtudes políticas.
Não confio em ninguém que queira criar um homem melhor.


ponde.folha@uol.com.br



Escrito por LBeraldo às 20h06
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O ministro do Supremo convidado para a festa de casamento de um advogado em Capri jura que nem é amigo do noivo

Da Coluna do Augusto Nunes

Especializado em proclamar a inocência de gente cujo prontuário implora por uma temporada na cadeia, o advogado criminalista Roberto Podval aparece frequentemente no noticiário dos jornais ─  sempre do lado errado. No momento, por exemplo, cumpre-lhe garantir que o casal Nardoni não matou a menina Isabella, que Marcelo Sereno se limitou a prestar relevantes serviços à pátria quando foi o  braço direito de José Dirceu na Casa Civil, que Denise Abreu só pensou nas vítimas dos acidentes e nos flagelados dos aeroportos enquanto agiu na Anac ou que Sérgio Gomes da Silva, vulgo Sombra, nada teve a ver com o assassinato do prefeito Celso Daniel. Não é pouca coisa.

Para tirar uma folga da seção de polícia, e talvez para mostrar que esse tipo de trabalho é pelo menos tão lucrativo que está rico aos 45 anos, Podval resolveu fazer uma escala nas colunas sociais a bordo de um casamento de cinema. Como a noiva tem ascendência italiana, decidiu que o cenário do evento, marcado para 21 de junho, seria o esplêndido spa na Ilha de Capri que abriga o restaurante L’Ollivo (duas estrelas no Guia Michelin). Assegurada a boa mesa, tratou de acentuar o clima romântico com um show do cantor Peppino di Capri, presença obrigatória nas paradas de sucesso dos anos 60.

Disposto a tornar irresistível a tentação de cruzar o Atlântico, o noivo avisou aos 200 convidados que todos teriam direito a dois dias de hospedagem gratuita no Capri Palace Hotel (um cinco estrelas cujas diárias oscilam entre R$ 1,5 mil e R$ 15 mil), em apartamentos ornamentados com champanhe, frutas e brindes. Também colocou a disposição dos viajantes uma equipe de cabeleireiros e maquiadores importados do Brasil. E informou que os deslocamentos internos ficariam por conta da anfitrião.

Conversa fiada
Nada falhou, orgulhou-se em seu blog a empresa contratada para organizar a festa de arromba: “O casamento foi um evento de proporções épicas. Organizamos a chegada dos convidados, auxiliamos nos trâmites de reserva e no deslocamento na Itália via trem ou ferrys, check-in e diversos detalhes para que se sentissem em casa”. A celebração se estendeu até o começo da manhã do dia 22, quando começou a retirada das testemunhas do que parecera um glorioso desembarque de Roberto Podval nas colunas sociais.

Exatamente um mês depois da festança, a Folha de S. Paulo devolveu o criminalista às páginas de sempre com a informação surpreendente: o ministro José Antonio Dias Toffoli ─ que participou do julgamento de dois casos envolvendo clientes de Podval e, no momento, é relator de outros dois ─ havia cabulado uma sessão do Supremo Tribunal Federal para comparecer à festança. Não viu nada de errado na viagem a Capri?, quis saber o jornal nesta quinta-feira.

“A viagem foi de caráter estritamente particular”, mandou dizer o ministro pela assessoria de imprensa. Se quisesse, poderia comprovar que arcou com os gastos da viagem e que nem tem intimidade com o criminalista. Mas, segundo a assessoria, “ele se reserva o direito de não fazer qualquer comentário sobre seus compromissos privados”.

Conversa fiada, retrucam normas legais e imperativos éticos. Primeiro, Toffoli tem o dever de provar que não usou dinheiro público na compra das passagens aéreas nem ficou hospedado num hotel por conta do noivo. Se fez isso, deve ressarcir o STF e o anfitrião generoso ─ e declarar-se impedido de participar de qualquer julgamento em que Podval esteja interessado. É muito amigo do advogado para decidir com isenção. Se bancou com o próprio dinheiro uma viagem à Itália só para festejar um casamento, é mais amigo ainda. Em ambas as hipóteses, está definitivamente sob suspeição.

“Os casos de suspeição previstos em lei são referentes apenas a relação a relação de amizade íntima ou inimizade capital entre o magistrado e a parte e jamais em relação ao advogado”, intrometeu-se no assunto Gabriel Wedy, presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Interessada em justificar casos semelhantes protagonizados por integrantes da entidade, a Ajufe não perde nenhuma chance de errar. Claro que sólidos laços de amizade entre o juiz e o advogado interferem no desfecho do processo.

Em contrapartida, o doutor Gabriel Wedy acabou por juntar-se involuntariamente ao coro dos que exigem que Toffoli fique fora do julgamento do caso do mensalão. Antes de vestir a toga presenteada por Lula, o ministro foi advogado do PT e chefe da Advocacia-Geral da União. No primeiro emprego, ajudou a preservar o direito de ir e vir dos delinquentes companheiros. No segundo, aprendeu com o mestre a recitar que a roubalheira imensa não aconteceu.

Caso insista em julgar os mensaleiros no STF, Toffoli será mais que um juiz suspeito. Será um cúmplice pronto para absolver os culpados.



Escrito por LBeraldo às 14h46
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Casamento de interesses

Editorial da Folha de São Paulo - 23 de julho de 2011

Vem do mais novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), José Antonio Dias Toffoli, uma ilustração constrangedora da promiscuidade entre interesses públicos e privados que dá o tom da vida republicana no Brasil.
Em junho passado, realizou-se na romântica ilha italiana de Capri um casamento "de proporções épicas", segundo a empresa que promoveu o evento. Duzentos convidados hospedaram-se num hotel de luxo; três deles confirmaram que despesas de hospedagem ficaram a cargo dos anfitriões.
O noivo era o advogado brasileiro Roberto Podval. Entre os convidados estava o ministro Toffoli. Sua viagem não despertaria muita crítica, não fosse por algumas circunstâncias comprometedoras.
Primeiro, Toffoli faltou a um julgamento no STF para participar das bodas. Vá lá; não é todo dia que uma festa desse quilate está ao alcance de juristas brasileiros.
Em segundo lugar, o noivo atua em dois processos dos quais o relator é Toffoli. Vá lá, comentaria com meridional bonomia algum velho tribuno dos tempos de declínio do Império Romano. Quem sabe o ministro terá pago as despesas de sua estadia; quem sabe poderá declarar-se sob suspeição nos julgamentos.
Segue-se o terceiro ponto: Toffoli recusa-se a dizer quem pagou pela viagem. Conforme nota de sua assessoria, o magistrado se reserva o direito de não fazer qualquer comentário sobre seus compromissos privados.
Ora, é exatamente dos compromissos pessoais -do peso que possam ter sobre seus julgamentos na condição de autoridade investida- que se trata. É o ministro quem parece ter misturado, a um ponto inadmissível, a ordem do privado e a esfera do público, nesse acontecimento.
Invocando a privacidade, Toffoli não dissipa nem a mais tênue suspeita de favor pessoal sobre seu comportamento. Com que autoridade julgaria, depois do precedente, qualquer caso que possa envolver tráfico de influência?
A presença de um ministro do Supremo no matrimônio pôs sob um mesmo teto o que não deveria estar unido nem na mais remota hipótese. Não se fez o menor esforço de distinguir entre o público e o privado. Mas, ao que tudo indica, Toffoli dá mais valor a festas de casamento do que a essa separação.



Escrito por LBeraldo às 14h30
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O provocador cordial

Aos 80, FHC se reinventa

RESUMO
Fernando Henrique Cardoso encontra no ativismo pela descriminalização da maconha uma forma de restituir a articulação entre atuação intelectual e carreira política. Ao buscar um arremate progressista para vida e obra, o ex-presidente delineia seu perfil entre "temperamento conciliador" e "pensamento conflitivo".

Rafael Campos Rocha



FERNANDO DE BARROS E SILVA

FERNANDO HENRIQUE Cardoso entra na sala de seu apartamento, no bairro paulistano de Higienópolis, cinco minutos depois do horário combinado. Gentil e suave, pede desculpas e explica que estava se despedindo do filho, que havia dormido lá.
Desde que Ruth Cardoso morreu, em 24 de junho de 2008, há três anos, FHC mora sozinho. Não mudou nada no lugar. Os filhos do casal (Luciana e Beatriz, além de Paulo Henrique) o visitam com frequência, vez ou outra dormem lá.
Fazia sol e frio na última terça pela manhã, quando ex-presidente recebeu a Folha para duas horas de conversa. Vestia suéter marrom-claro e calça de lã cinza. Carregava dois celulares, que deixou a seu lado, numa mesinha. Quando ambos tocaram, ao longo da entrevista, ele desligou sem atender.
Logo de saída, disse que nunca deu bola para o próprio aniversário, mas que achou muito simpático o jantar na sexta-feira anterior, na Sala São Paulo, quando 400 convidados -entre políticos, empresários, banqueiros, ex-ministros, intelectuais, jornalistas e amigos- comemoraram os seus 80 anos. Comemoração antecipada -FHC é de 18 de junho de 1931, desde ontem um jovem octogenário.
O ex-presidente comentou que só não aproveitou inteiramente a homenagem porque está com diverticulite -uma inflamação no intestino. Não pode beber álcool e tem restrições alimentares. Foi medicado, tudo sob controle, diz, lembrando que foi essa a doença que desencadeou a morte de Tancredo Neves, em 1985. (Tancredo, na verdade, tinha um tumor benigno e morreu de septicemia -infecção generalizada- depois de ser operado, conforme a Folha revelou na época.)

FENÔMENO Na Sala São Paulo -uma espécie de Versalhes do tucanato, como alguém definiu -, no meio de tanta gente da elite paulista e seus agregados, quem causou frisson foi Ronaldo Fenômeno. Acompanhado pela mulher, Bia Anthony, passou não mais do que meia hora no salão -o suficiente para ser assediado por vários convidados. Vicky Safra, a mulher do banqueiro Joseph Safra, foi lá pedir um autógrafo ao ex-jogador. E a mulher do crítico literário Roberto Schwarz, Grecia, saiu correndo até a porta para tirar uma foto ao lado do ídolo quando ele já estava indo embora.
Ali, Ronaldo destoava e brilhava à sua revelia. "Ele é um cara muito agradável, muito afetivo. Mas não é populista. Não gosta desse oba-oba", diz FHC sobre o Fenômeno. E completou: "A mulher dele ajuda muito também -é interessante, simpática, inteligente."
O tucano ficou amigo do craque aposentado há pouco tempo, quando este ainda atuava pelo Corinthians. Visitam-se e até jogaram pôquer juntos, mas FHC diz que a mesa do Fenômeno não é para o seu bico. "Eu disse a ele: 'Está maluco?! Eu aposto R$ 10, vocês são milionários!'"
O ex-presidente diz "jogar um poquerzinho com os amigos de vez em quando". O historiador Boris Fausto e o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, seus amigos de juventude, sempre participam da mesa, entre outros convidados. Brincalhão e gozador, FHC costuma desafiar os demais dizendo saber o jogo que cada um tem nas mãos. Não deixa de ser uma espécie de blefe ao contrário.
Intelectualmente, FHC também foi sempre um provocador. Intuiu cedo que o jogo da esquerda, da qual fazia parte (e da qual ainda se julga parte), era uma espécie de blefe. O tempo mostra que ele mais acertou do que errou conforme foi publicando as obras que o projetaram a partir dos anos 60.

CONFLITIVO Quase no fim da entrevista, FHC se definiu como uma pessoa "de temperamento conciliador e pensamento conflitivo". A imagem é precisa para sintetizar sua atuação como político e sua força como sociólogo.
Entre um e outro, a relação é mais complementar do que se imagina. De certa forma, o político FHC "realizou" o que o intelectual escreveu -muito mais, por exemplo, do que Lula cumpriu o que falava até chegar à Presidência.
É irônico, também por isso, que FHC carregue como um estigma o "esqueçam o que escrevi". Teria dito isso num almoço com empresários, em 1993, quando era ministro da Fazenda, de acordo com o relato de terceiros. Grudou nele como símbolo do político que traiu o intelectual, apesar de FHC repetir que a frase não existiu ("nunca ninguém afirmou que tenha ouvido essa frase; é maldade pura").
Pelo contrário, FHC não esconde o orgulho que tem da sua obra de juventude. Em termos teóricos, ele na verdade mudou muito pouco, justamente porque sempre foi muito pouco dogmático.

OPOSIÇÃO Sua mais recente intervenção como ideólogo do PSDB saiu pela culatra. Num texto chamado "O Papel da Oposição", publicado em abril na revista "Interesse Nacional", FHC escreveu que "enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos".
O uso infeliz da expressão "povão" fez o mundo desabar sobre sua cabeça e interditou o debate. Para além do ato falho, no entanto, o texto identifica uma brecha de atuação para o PSDB na emergência de uma grande classe média que não se identifica com o PT de forma automática e tem demandas de consumo e cultura novas.
O jornalista pergunta: para cumprir esse papel o PSDB não teria que caminhar para a direita? Mais ainda, o PSDB não estaria condenado a ser o contraponto conservador do PT, uma espécie de Partido Republicano brasileiro?
FHC dá um jeito de dizer educadamente que as questões são equivocadas. E explica, começando por Marx: "O pressuposto de que, por definição, os mais pobres são os mais progressistas não é marxista. Marx dizia que eram os trabalhadores e os intelectuais que fariam a revolução, não os miseráveis. Ninguém está mais pensando em revolução hoje".
E prossegue: "O pressuposto de que olhar para as classes emergentes te empurra para a direita não tem sustentação. A direita pode estar em outro lugar. Inclusive entre os mais pobres. Eu não escrevi aquele texto pensando em ideologia. Escrevi pensando na desconexão atual entre a sociedade e as instituições políticas. Como essa é uma sociedade com muita mobilidade, tem gente, ou muita gente, sem conexão."
E conclui: "O Estado pode prender os mais pobres, pelo clientelismo. Como nós, do PSDB, não temos o Estado nas mãos, é mais difícil mexer nessas camadas. Mas tem muita gente que não está amarrada". Os tucanos, então, não devem ser os republicanos ao sul do Equador?
FHC rebate: "Não concordo com aqueles que fazem analogia entre o PT e o Partido Democrata e o PSDB e os republicanos. Somos muito diferentes dos americanos. Os republicanos são conservadores e se assumem como tal. Há uma massa da população que quer ser conservadora. No Brasil, não tem isso. Quem for por aí está perdido. Não tem nem o pensamento, nem pessoas com essa predisposição. Você vai ter, isso sim, alianças entre setores que são dinâmicos e modernizadores. O agronegócio no Centro-Oeste e as camadas médias, por exemplo. Mas por que chamar isso de conservador, se é dinâmico e modernizador?"
"Não estou dizendo que não existam conflitos de classe aí. Mas é diferente do Partido Republicano. Ele é reacionário, é ideológico. No limite, é a favor da pena de morte. Aqui não tem essa coerência. Talvez essa sociedade que está se abrindo não possa mais ser descrita pelas categorias com as quais nós a pensamos no passado. O PFL [atual Democratas] poderia ser um partido liberal. Mas não é. Veja o prefeito de São Paulo, criou outro partido. É liberal? Não é nada. Os liberais brasileiros sempre foram estatizantes. São do Estado, clientelistas."

(continua abaixo)



Escrito por LBeraldo às 12h24
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O provocador cordial

(segunda parte_


SOCIÓLOGO Essas respostas explicitam um modo de pensar que remete ao sociólogo dos anos 60.
Primeiro, observar a realidade -o que parece óbvio, mas não é. Segundo, não usar categorias -sejam conceitos ou situações históricas- sem submetê-las ao crivo da realidade que se quer explicar.
O primeiro grande livro de FHC é "Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional", sua tese de doutorado, de 1962. Tratava-se de entender, a partir do estudo da economia do charque, no Rio Grande do Sul, a complicada e aberrante convivência entre estes dois termos -capitalismo e escravidão. Quais são os nexos entre eles?
"A escravidão não poderia ser explicada sem referência à expansão do grande capitalismo", disse FHC à Folha, numa entrevista de 1996. "Mas a história do Brasil não é uma cópia do que está acontecendo na Europa. Há uma singularidade. Ao mesmo tempo, ela não tem leis próprias: é derivada, subordinada, dependente. Do ponto de vista teórico, era o mesmo mecanismo que usei depois para discutir a dependência."

DEPENDÊNCIA No mesmo ano, FHC começou a estudar o empresariado brasileiro. Em 1962, o mundo vivia o auge da Guerra Fria, polarizado em dois blocos, e os intelectuais da América Latina estavam sob forte impacto do êxito da Revolução Cubana.
O socialismo mais do que nunca fazia parte do horizonte histórico. A posição dominante na esquerda, encampada pelo Partido Comunista, rezava que, para atingir o reino sonhado, as nações periféricas precisavam antes fazer a sua revolução democrático-burguesa, a fim de derrotar as forças do atraso.
Entendia-se por isso a associação entre imperialismo e elites latifundiárias, que bloqueava a chegada do progresso -ou, como se dizia, o "desenvolvimento das forças produtivas". A burguesia nacional era, portanto, aliada estratégica dos trabalhadores.
Quando publicou "Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil" (1964), Fernando Henrique mostrou que, no mundo real, as coisas vinham funcionando de maneira bem diferente. A burguesia nacional já estava ligada ao imperialismo, "satisfeita com a condição de sócia menor do capitalismo ocidental". Os pressupostos teóricos da esquerda eram fantasiosos.

CATASTROFISMO FHC passava a ser o grande adversário das teses catastrofistas em voga na época, segundo as quais países como o Brasil estavam condenados à estagnação e só teriam chances de se desenvolver fora dos marcos do capitalismo. Sociólogos como o americano André Gunder Frank e os brasileiros Theotonio dos Santos e Rui Mauro Marini, conhecidos como "dependentistas de esquerda" -hoje caídos no esquecimento-, partilhavam dessas ideias com razoável sucesso.
Em contraponto a eles, o livro que consagrou a teoria da dependência na versão fernandina seria um desdobramento das análises do "Empresário Industrial".
Lançado em 1967, no Chile, em parceria com o argentino Enzo Faletto, "Dependência e Desenvolvimento na América Latina" reconhecia que a economia brasileira se industrializava e que não havia estagnação, apesar da inserção dependente do país na ordem global. Dizia ainda que essa dependência só poderia ser bem compreendida com a especificação histórica dos conflitos políticos internos de cada país e da sua relação com a política e a economia internacionais.

PRESIDENTE Faz sentido que a chegada à Presidência, em 1994, tenha sido vista como uma janela de oportunidade para o país adequar seu desenvolvimento -na verdade, retomá-lo depois da falência do nacional-desenvolvimentismo- à nova ordem mundial.
Na ocasião, o cientista político José Luís Fiori chegou a publicar, durante a campanha eleitoral, um ensaio no caderno Mais! que ficou célebre. Chamava-se "Os Moedeiros Falsos", em referência ao romance de André Gide, do qual tirou a epígrafe: "Afinal, é preciso admitir, meu caro, que há pessoas que sentem necessidade de agir contra seus próprios interesses".
Fiori dizia que FHC "resolveu acompanhar a posição de seu velho objeto de estudo, o empresariado brasileiro, e assumiu como fato irrecusável as atuais relações de poder e dependência internacionais. Deixou seu idealismo reformista e ficou com seu realismo analítico para propor-se como 'condottiere' da sua burguesia industrial, capaz de reconduzi-la a seu destino manifesto de sócia-menor e dependente do mesmo capitalismo associado, renovado pela terceira revolução tecnológica e pela globalização financeira". Esqueçam o que escrevi? Nunca! Exatamente o contrário.
Para FHC, em geral, os intelectuais têm dificuldades de compreender a política pois sofrem de deficit de realidade. Alguém de boa-fé negaria que o país que o tucano entregou a Lula era bem melhor do que o recebido por ele? "A maior injustiça que fazem comigo é me chamar de neoliberal. O que fiz foi reestruturar o Estado", diz.
O ex-presidente vê seu governo como parte de um processo de avanços que começa na década de 1980. No resumo de FHC, os passos fundamentais da história recente do Brasil foram os seguintes: primeiro, o movimento que vai das Diretas-Já à Constituinte. A Constituição desenhou o arcabouço social do Brasil contemporâneo.
O segundo passo foi dado com Fernando Collor: "Abriu a economia, atabalhoadamente, mas abriu". O terceiro passo foi a estabilização da moeda. O quarto, a reforma patrimonial do Estado. O quinto são as políticas sociais. "Isso é a história do Brasil recente. Esses são os pontos importantes. E há continuidade nisso, da Constituição para cá", sustenta.

CEBRAP Entre a teoria da dependência e o Real, muita coisa aconteceu. Em 1969, cassado na USP, FHC fundou com outros professores o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que iria se tornar, nos anos 70 e 80, o principal centro de estudos de corte progressista do país, além de celeiro de quadros intelectuais absorvidos por governos democráticos, a começar pelo de Franco Montoro em São Paulo, em 1982.
Participou da formulação da anticandidatura presidencial de Ulysses Guimarães, em 1973, e projetou-se como liderança da sociedade civil nascente que pressionava pelo fim do regime militar.
Em 1975, publicou "Autoritarismo e Democratização", aproximando-se como intelectual do assunto que pautaria a década. Suplente de senador em 1978, assumiu o mandato em 1983, quando Montoro se elegeu governador. Derrotado por Jânio Quadros na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 1985 -seu pior revés político-, foi senador até 1992. Fundou o PSDB em 1988 e foi chanceler de Itamar Franco por poucos meses, até assumir a Fazenda em 1993 e entrar para a história.
Apesar da trajetória incomum e brilhante, FHC diz ter sido "um presidente acidental". O cargo -ele tenta convencer o interlocutor- nunca o obcecou.
Talvez com isso queira marcar um contraponto entre o seu jeito maleável de lidar com a política e os acasos da existência e a ideia fixa de uma vida inteira, encarnada por seu amigo José Serra. "Eu não sou um político tradicional, não vivo da política. E talvez nem para a política, na acepção weberiana, da vocação. O lado intelectual é forte em mim. O lado provocador, de arriscar, de flertar com posições de vanguarda." MACONHA Fernando Henrique vem desempenhando de um ano para cá um papel que não é nem o do intelectual, nem o do político, embora ambos nele convivam. Aos 80, adotou a causa da descriminalização da maconha e se tornou uma espécie de ativista global, pesquisando e discorrendo sobre o assunto mundo afora. O protagonismo no documentário recém-lançado "Quebrando o Tabu", do diretor Fernando Grostein Andrade, deu a FHC uma nova notoriedade. Na prática, ele passou a se dirigir a uma geração que hoje tem 18 anos e estava nascendo ou engatinhava quando ele se elegeu presidente.
O engajamento de FHC nessa questão parece funcionar como um arremate progressista em sua biografia, em sintonia com o lugar que ele sempre quis ocupar.
"É um tema mais fácil para um político fora do jogo eleitoral, como eu, que nem político no sentido convencional sou", diz. Para ele, seu partido, o PSDB, por ora deve ficar fora da discussão, para não atrapalhar: "As pessoas reclamam, dizem 'ah, o PSDB não está dando apoio', mas é melhor que não se meta. Se for se meter, vai se meter com o preconceito. Quando na sociedade houver uma coisa mais clara, opções reais, aí os políticos entram". Ele acredita que a sociedade brasileira, conservadora nessa matéria, ainda não está madura para influenciar os políticos, e os políticos não vão na vanguarda. Esses, ele diz, entusiasmado, são "temas de vanguarda", que "têm conexão" com a vida real.
"Anda comigo na rua para você ver se não tem", provoca, quase brincando, depois de dizer que outro dia o porteiro de um prédio vizinho o abordou para elogiar sua posição.

SOCIALISTA Já é meio-dia e o jornalista pergunta se FHC algum dia foi, de fato, socialista. A resposta vem assim:
"Nunca fui militante no sentido estrito. Eu era estudioso. Na altura do seminário do Marx [entre os anos 50 e 60], ninguém era ligado a partido. E nunca me entusiasmei com a luta armada. Mas até hoje eu acho o sistema capitalista extremamente difícil de tragar. Pessoalmente, não aceito desigualdades. Tenho horror a prerrogativas."
E exemplifica: "A mim me constrange, por exemplo, não entrar numa fila. Eu primeiro vou para a fila.
Depois alguém pode me tirar, mas eu vou. No instituto, eu fico na fila para entrar no elevador. Não suporto 'entourage'. Ao contrário do que muita gente pensa, meu ser não é afim com esse sistema. Sou mais igualitário, como sentimento. Agora, sou realista."

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il1906201105.htm



Escrito por LBeraldo às 12h23
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DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

Lua de fel

05 de dezembro de 2010

DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo

O presidente Luiz Inácio da Silva é daquelas pessoas sortudas, mas que demonstram acentuada dificuldade em conviver com o que de bom a vida lhes dá. Querem sempre mais e acham que o mundo lhes é um eterno devedor.

Lula tem todos os motivos para celebrar o sucesso: veio da pobreza, viu o ambiente no qual soube aproveitar oportunidades e venceu ao custo de esforço, obstinação e uma sorte rara.

Chegou à Presidência da República, transitou por ela com apoio inédito - política e socialmente falando -, transpôs obstáculos aparentemente intransponíveis, chega ao fim de dois mandatos popular como nenhum outro e carregando consigo o feito de ter convencido a maioria dos brasileiros a eleger presidente uma desconhecida.

Nunca se viu nada igual (para o bem e para o mal) e dificilmente o País verá tão cedo algo parecido.

Lula tem razões de sobra para estar feliz. Felicíssimo. No entanto anda triste. Tristíssimo. Chorando por qualquer coisa, segundo relatos de correligionários. Destilando ressentimento e insatisfação como se pode observar por seus atos e palavras nos últimos tempos.

Durante a campanha eleitoral poder-se-ia atribuir esse estado de espírito à tensão do combate.

Na hora da despedida é difícil perceber por que no lugar de estar em lua de mel consigo, Lula cultiva o fel e se dispõe ao exercício da grosseria com uma frequência atípica para quem teria tudo para estar de bem com a vida.

Não quer largar o poder. Entende-se, mas até certo ponto, pois a compreensão da regra do jogo é um imperativo a todo governante. Bem como uma razoável conexão com a realidade.

Lula sai iludido de que é a própria "encarnação" do povo brasileiro. Convenceu-se de que está acima dos demais e que tudo pode. Inclusive dar-se ao desfrute da covardia.

Gratuita, para dizer pouco, a agressividade com que atacou o repórter Leonencio Nossa, do Estado, por causa de uma pergunta sobre o motivo de sua visita ao Maranhão, na última terça-feira. O jornalista quis saber se a presença do presidente no Estado era uma forma de agradecimento à "oligarquia Sarney".

Uma pergunta crítica. Respondida de maneira tosca e covarde: "Você tem de se tratar, quem sabe fazer uma psicanálise para diminuir o preconceito."

De uma investigação psicanalítica necessita o presidente para compreender a razão de defender-se assim diante de uma mera indagação sem nenhuma ofensa. Consciência pesada por ter se aliado ao que há de mais retrógrado na política?

Arrependimento por não ter tentado o lance maior do terceiro mandato?

Consciência tardia de que quebrou o juramento de cumprir a Constituição?

Seja o que for não justifica a ignorância. No sentido de ignorar o sentido do termo oligarquia (governo de poucas pessoas, pertencentes a um mesmo partido, classe ou família) e no sentido da hostilidade e, sobretudo, da covardia, pois sabia que o rapaz não poderia reagir ao ataque.

Esse é só um exemplo entre vários. Demonstração de que o ofício do poder requer preparo, principalmente para deixar de exercê-lo com um mínimo de nobreza.

Apetites. Fisiologismo por fisiologismo, justiça seja feita ao PMDB: foi quem mais perdeu até agora na composição do ministério. Ocupava as pastas da Saúde, Defesa, Agricultura, Integração Nacional, Minas e Energia e Comunicações.

Se não houver acréscimo, ficará com Minas e Energia, Agricultura, Turismo e Previdência. Um rebaixamento quantitativo e qualitativo.

Até sexta-feira à tarde apenas o PT havia tido ministros confirmados e, apesar disso, o partido continuava reivindicando mais postos a fim de apaziguar a briga interna por cargos.

A presidente eleita está precisando atender aos pedidos do presidente Lula, dos derrotados, dos amigos, dos que assumiram compromissos eleitorais, dos que precisam ser agora bem atendidos por terem sido maltratados, dos que necessitam de espaço para assumir mandato não disputado e de mais todos os representantes de correntes ora em guerra por um lugar na Esplanada.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101205/not_imp649679,0.php



Escrito por LBeraldo às 20h42
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