 |
|
|
DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (20/11/2009)
JANIO DE FREITAS
Efeito cômico O Supremo consagra com um bafafá grotesco a conclusão de que sua conclusão sobre o caso Cesare Battisti nada vale
|
O BAFAFÁ ENGRENADO pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, para definir-se sobre uma questão que o caso Cesare Battisti não incluía, resultou na quebra de um princípio básico: no Estado democrático, é essencial que as decisões judiciais sejam o mais precisas possível em seus fundamentos e o mais claras para a compreensão e a confiança do senso comum. Foi um fecho à altura de um processo cuja lerdeza, com longos intervalos entre suas sessões de pronúncia de votos, tornou o Supremo Tribunal indiferente à permanência de um homem em prisão, à espera de que Suas Excelências decidissem se os crimes que o condenaram justificam, ou não, sua extradição a pedido da Itália. E processo que proporcionou outra provável manifestação da tendência do atual Supremo de exceder-se -seja em casos como o da Reserva Raposa/Serra do Sol, quando sua decisão passou do problema da propriedade fundiária para impor uma política das reservas indígenas, seja pelo excesso de manifestações extrajudiciais sobre assuntos dos outros dois Poderes. O estreito resultado de cinco a quatro pela extradição de Battisti (dois ministros ausentes) requeria por si só, e ainda com divisões tão acirradas fora e dentro do tribunal, cuidados especiais. Deu-se o oposto. Presidente e derrotado quanto à obrigação (ou à liberdade) do presidente da República de praticar a decisão do STF, Gilmar Mendes fez uma proclamação apressada e confusa do resultado final, limitando-o à extradição e excluindo o que caberia ao presidente ante a decisão do tribunal. Marco Aurélio reagiu, com cobranças irônicas à proclamação do resultado daquela segunda parte, e começou o espetáculo: nove Excelências falando ao mesmo tempo, em respostas ou provocações de uns aos outros -digamos, confronto de torcidas jurídico-políticas. Confronto sublinhado por dois traços. O primeiro: a maioria dos ministros deixou a impressão de falta de coragem, esta coragem mínima de dizer com objetividade e clareza, e simplesmente, que em razão disso e daquilo "considero que a Presidência da República deve seguir a decisão do Supremo Tribunal Federal", ou, da mesma maneira, "não está compelida a seguir a decisão do STF". O palavrório juridiquês e fugidio enrolou-se em si mesmo, revestiu a maioria dos ministros, e produziu este efeito cômico: nem eles entendiam mais o que os outros diziam, supondo-se que houvesse o propósito de ser entendido, e não só o oposto. Já ninguém sabia mais como a maioria votara. O segundo traço foi oferecido por Carlos Ayres Britto. Desde sua primeira intervenção no caso, lá atrás, esse ministro considerou, como outros quatro, que Cesare Battisti não foi condenado na Itália por crimes políticos, mas por crimes comuns, de morte. Na sessão de anteontem, ressaltou que os atos de Battisti passaram por todas as instâncias da Justiça italiana e pela Corte Europeia, sempre qualificados como crimes comuns, e sem revisão das sentenças condenatórias. Ainda coube farto elogio à Justiça italiana. Depois disso, porém, Ayres Britto entrou em repentino parafuso de juridiquês para juntar-se aos quatro votos, tornados vitoriosos com o seu, que transferiram para o presidente da República a decisão de extraditar ou não. Para e por que tanto tempo com seus votos, se considerava que nada valeriam para o presidente da República, para Cesare Battisti, para a Itália e para a própria condição de magistrado do próprio Ayres Britto, cuja decisão não produz efeito? Por cinco a quatro, o tribunal definiu-se pela extradição e, pelos quatro aí vencidos mais o de Ayres Britto que deu um para cada lado, o tribunal decidiu que sua decisão pode ser seguida ou não pelo presidente da República, a critério do próprio. Logo, o caso Battisti desnudou um sistema muito original. O Comitê Nacional de Refugiados, que existe para decidir de refúgios e extradições, decidiu pela extradição de Cesare Battisti, mas o ministro da Justiça, Tarso Genro, pôde desconsiderar a decisão e, por critério pessoal, conceder-lhe a condição de refugiado. Então, Comitê Nacional de Refugiados para quê? É só entregar o processo à decisão ministerial e chega de burocracia e lenga-lenga. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, passa o ano com o recurso italiano contra a decisão pessoal de Tarso Genro e, depois de tantos meses de tramitação, tantos votos enciclopédicos e horas inextinguíveis, consagra com um bafafá grotesco a conclusão de que sua conclusão nada vale. Então, para quê tudo aquilo? Bem, uma decisão do Supremo vale, sim. Não a que lhe foi pedida, a respeito do cabimento, ou não, da entrega de Cesare Battisti à Justiça italiana. Mas aquela que outra Excelência praticou sem precisar de processo, votos e juridiquês, apenas com lavar as mãos.
Escrito por LBeraldo às 18h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Da FOLHA DE SÃO PAULO de hoje (15/11/2009)
FERREIRA GULLAR
Retrocesso à vista O petismo já abriu mão do revolucionarismo, mas não admite perder posições conquistadas
|
O FIM DA utopia marxista, que apostava na derrota do capitalismo, deu lugar, na América Latina, ao neopopulismo que, fazendo-se passar por socialista, explora, em vez da contradição classe operária versus burguesia, a oposição entre pobres e ricos. Se, no caso anterior, os sindicatos funcionavam como instrumento de organização e mobilização do operariado para a tomada revolucionária do poder, agora constituem uma burocracia de neopelegos, que passaram a ocupar posições estratégicas no aparelho de Estado e na máquina política. Assim, pressionam o governo e os patrões para que façam pequenas concessões aos trabalhadores, com a condição de mantê-los quietos, enquanto eles, os neopelegos, enriquecem a se fortalecem politicamente. A ascensão de Lula à Presidência da República foi resultado desse jogo e, ao mesmo tempo, um salto qualitativo para a elite sindicalista. As consequências disso para a democracia brasileira podem ser as mais desastrosas, como procurou mostrar Fernando Henrique Cardoso, num artigo recente, intitulado "Para onde vamos?". O neopopulismo nada tem de revolucionário, como alardeia Hugo Chávez, travestido de líder esquerdista, mas que, na verdade, se apoia no voto do venezuelano pobre. Sustentado pelos vultosos rendimentos do petróleo, mantém programas sociais assistencialistas, que lhe garantem vasta popularidade. Aparece, diante do povão desinformado, como seu providencial protetor, que o defende de um lobo mau chamado Estados Unidos. Seu verdadeiro projeto é manter-se indefinidamente no poder e, para consegui-lo, fez o Congresso aprovar a reeleição ilimitada. Lula tentou seguir o mesmo caminho, mas teve sua pretensão rejeitada numa pesquisa de opinião. Precavido, mudou de tática e terminou adotando a candidatura de Dilma como a solução possível. Invenção sua, se eleita, ela terá que fazer dele seu sucessor em 2014, e, assim, caso isso ocorra, teríamos mais oito anos de Lula na Presidência da República, o que somaria, no total, 20 anos de lulismo. Ou mais, muito mais, porque pode não parar aí, já que, àquela altura, as bases do neopeleguismo e do neopopulismo estariam amplamente assentadas em todo o país. A ameaça é que, se já agora ele se rebela contra a ação fiscalizadora do Tribunal de Contas da União e pretende calar a imprensa, ou seja, não admite que ninguém critique ou cerceie suas decisões de governo, imaginem o que não fará durante tantos anos no poder. A história tanto anda para frente como pode andar para trás. O propósito de, chegado ao poder, não sair mais, faz parte da ideologia petista, como deixou claro José Dirceu, em visita a Madri, logo após a posse de Lula, em 2003, ao afirmar que o projeto deles era ficar 20 anos no poder. Sim, porque, ao contrário dos outros partidos "burgueses", o partido dito revolucionário vem para salvar o povo e mudar o rumo da história. Logo, não pode se submeter às regras democráticas da alternância no poder. Se é verdade que, a esta altura, o petismo já abriu mão do revolucionarismo, não admite perder as posições conquistadas. Lula, muito esperto, logo compreendeu que o Brasil não é a Venezuela. Sabe que, embora tenha maioria no Congresso, este jamais lhe concederia um terceiro mandato e muito menos a possibilidade de reeleição ilimitada. Por isso, adotou a tática de conseguir um mandato tampão para Dilma, enquanto, às carreiras, procura implantar o PAC e aparecer, diante da nação, como um presidente empreendedor, que visa elevar o país à condição de grande potência. Assim age Chávez e assim agiu nossa ditadura militar. A fórmula é sempre aquela: inimigo dos poderosos e amigo dos pobres, defensor dos negros e mulatos, inimigo dos brancos de olhos azuis. Isso transparece, a todo momento, em suas declarações e discursos. Não faz muito tempo, falando aos catadores de lixo, criticou os ricos que, deliberadamente, sujam a cidade para que os lixeiros, humilhados por eles, a limpem. É um presidente da República que, sem qualquer escrúpulo, faz questão de instigar ressentimentos e conflitos entre os cidadãos, jogar uns contra os outros. Isso no discurso, porque, de fato, usa a máquina do Estado para favorecer grandes empresas nacionais e estrangeiras. O artigo de Fernando Henrique Cardoso chamou atenção para o perigo que o país corre. Em vez de desautorizá-lo, os formadores de opinião deveriam preocupar-se com o interesse maior da sociedade. É de se esperar, também, que Serra e Aécio assumam a responsabilidade que lhes cabe.
Escrito por LBeraldo às 15h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Do Blog do NOBLAT, mas publicado no jornal O Estado de São Paulo de hoje (08/11/2009)
Deu em O Estado de S. Paulo
Para estudioso, descolamento de Lula do PT foi ruim para a consolidação de uma cultura de partidos no País De Gabriel Manzano Filho: O que se vê no Brasil, hoje, é um "superpresidencialismo desbussolado e pitoresco", em que se produz "a montagem de um novo bloco de poder". Talvez não seja um subperonismo, como alertou no domingo passado, em artigo no Estado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - mas algo pior. "Porque o populismo de Perón politizava, enquanto o pobrismo do Brasil avilta." A comparação é do historiador Carlos Guilherme Mota, professor titular de História Contemporânea da USP (aposentado) e de História da Cultura na Universidade Mackenzie, para quem Lula pratica "uma forma cordial, mas matreira, de evitar a implantação de uma moderna sociedade civil". Respondendo ao "para onde vamos" de FHC, Mota diz que "há um fenômeno novo, estimulante, de uma nova esquerda liberal, republicana, socializante", aparecendo nos EUA, na União Europeia, no Chile e até no Brasil, com figuras como Barack Obama, Michelle Bachelet, Segolène Royal. O ex-presidente FHC acertou ao dizer que o governo Lula conduz o Brasil para um subperonismo? Não sei se o termo é esse, mas concordo que se trata da crise mais grave desde os anos 80. Prefiro definir o cenário como um superpresidencialismo desbussolado e pitoresco. A nação assiste, bestificada, à montagem de um novo bloco de poder. O tratamento dado ao segmento social que o governo entende por povo tem algo em comum com o dos descamisados de Evita e de Perón, mas é pior. No que é pior? Porque o populismo de Perón politizava e o pobrismo daqui avilta. O assistencialismo brasileiro é deprimente, pois trata esses condenados da terra como fracassados. E as condições de melhoria social - tão sonhada e ensinada por figuras como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro ou Florestan Fernandes - são pífias. Aqui o capitalismo andou para um lado e a política social andou para outro. Basta ver que o governo não consegue encaminhar a questão dos sem-terra, por exemplo. Mas há, de fato, uma semelhança até física de um certo tipo de "neossindicalista" brasileiro de hoje com aqueles pelegos dos tempos de Getúlio Vargas, Perón, Ademar de Barros... Como Perón nos anos 50 e nos 70, Lula tem uma enorme aprovação para si e para seu governo. Ele consegue isso porque põe em marcha uma mobilização autoritária em que aplica, magistral e perversamente, a velha metodologia da conciliação. O autoritarismo popular ao qual FHC se referiu, praticado por Lula, é uma forma cordial, mas matreira, de se evitar a implantação democrática de uma moderna sociedade civil. Com valores e regras respeitados, que valorize a formação da cidadania. O governo não caminha nessa direção? Os indicadores vão bem, mas a sociedade vai mal. E o poder é algo muito tentador quando os indicadores se tornam favoráveis. O governo Lula vem instaurando o que um de seus ministros, Franklin Martins, denominava "lambança". O Brasil assiste atônito a uma guerra civil nos grandes centros urbanos e a outra, menos estridente, no campo. O presidente chegou a declarar na semana passada que não sabe como equacionar o problema do narcotráfico. À semelhança da Argentina de Perón, existe aqui o assalto às estatais, que desviou o PT de seu papel histórico de criador de um trabalhismo moderno. FHC não poupou grupo nenhum, nem o PSDB, ao afirmar que "os partidos estão desmoralizados". Por que as oposições não conseguem fazer nada? A sociedade brasileira, que vinha se politizando até o final do primeiro governo Lula, perdeu o pique com o aviltamento dos partidos, sobretudo o PSDB na oposição, depois da opaca atuação do ex-candidato a presidente Geraldo Alckmin e das sucessivas indecisões dos pré-candidatos. O descolamento de Lula do seu partido não foi nada educativo para a consolidação de uma cultura de partidos no País. Há um esvaziamento dos oposições que não acontece apenas no Brasil. Esse esvaziamento dos partidos de esquerda é um fenômeno mais amplo. Faltam lideranças firmes, falta transparência nas negociações do interesse público. A quebra de confiança nos políticos é geral. Isso resulta, em grande parte, de uma reorganização da ordem mundial, mas, sobretudo, de uma brutal concentração de poder do Estado, por toda parte. Esse fenômeno dá força a Lula para um percurso despolitizante, em que a cada semana se anuncia uma novidade, desde o biodiesel ao pré-sal, à Olimpíada... O PAC e os discursos grandiosos do presidente lembram um pouco os projetos de impacto de Ernesto Geisel. Mas os projetos militares ainda deixaram o País mais estruturado. Lula está deixando pencas de aspones pendurados em altos salários nas estatais. Por isso o debate direita-esquerda perdeu importância? A direita se modernizou, a globalização a beneficia com o avanço das novas tecnologias e formas de dominação turbinadas pela cultura digital. Esta acelerou a vida econômico-financeira num ritmo que pulveriza as iniciativas da velha esquerda. Repetindo FHC, para onde o País vai? O Brasil duplicou sua população em 40 anos, mas a elite dirigente não se planejou nem criou mecanismos para um crescimento tão desafiador. Não tivemos uma revolução burguesa criativa, como a de outros momentos da História, mas sim uma burguesia em geral predadora, associada a interesses do capital internacional. Mas a crise de agora é mais profunda. Ela vem fazendo com que algumas lideranças se deem conta de que, em uma sociedade de massas, e com a pesada herança de uma mentalidade escravista-bragantina, só pode esperar um desastre. Que virá mais cedo ou mais tarde, e em algumas cidades já começou. Falta um estadista de pulso para, nesse contexto de guerra civil disfarçada, mobilizar a Nação. Perdeu-se, ao que parece, o caminho para uma social-democracia. Como recuperá-lo? O que falta a partidos social-democratas, como PSDB e PPS imaginam ser, um conteúdo programático e uma liderança - coisa que FHC cobrou com ênfase. Mas há lideranças surgindo, novas gerações de professores, juízes, promotores, pesquisadores, militares, profissionais liberais com boa formação e visão moderna do País. Como a política detesta o vácuo, vai aparecer alguma coisa no lugar? Acredito que sim. Há um fenômeno novo, muito estimulante, de uma nova esquerda liberal, republicana, bem formada e socializante. Ela vem aparecendo nos EUA, na União Europeia, no Chile, aqui mesmo no Brasil - onde é menos visível porque, neste momento, Lula ofusca tudo. Obama, Michelle Bachelet no Chile, Segolène Royal na França, são algumas pontas desse iceberg. http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/11/08/defino-cenario-como-superpresidencialismo-239243.asp
Escrito por LBeraldo às 18h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (05/11/2009)
JANIO DE FREITAS
O silêncio dos negócios Lula proclamou a aliança com a França antes de haver tempo para consideração de questões essenciais pela parte brasileira
|
A PROPAGANDA de vendedor feita pelo ministro da Defesa francês, Hervé Morin, respondeu apenas com um fugidio "sans problème" à questão essencial para que o Brasil não compre ilusão supondo pagar bilhões de dólares pela tecnologia, com o direito de utilizá-la para vendas internacionais, de aviões de caça. Sejam os franceses Rafale da Dassault, os suecos Gripen da Saab ou os norte-americanos F-18 da Boeing. Hervé Morin veio receber com Nelson Jobim o prêmio Personalidade França-Brasil-2009, mais do que justificado pela venda de submarinos e de uma obra gigante suspeitamente presenteada à Odebrecht. Mas usou a oportunidade para antecipar-se, na promoção do negócio com os Rafale, à chegada dos dirigentes da Boeing para promover o seu F-18. "Estamos oferecendo ao Brasil um índice de transferência de tecnologia como a França jamais propôs a outro país", apregoou Morin e nada há, em princípio, a opor a tal afirmação. Apesar disso, é aí que estão a obscuridade e o risco em que Lula embarcou às cegas. Se parte dos preços siderais dos aviões incluem a transferência de sua tecnologia, para que o Brasil possa vir a construí-los e vendê-los, são indispensáveis garantias de que a transferência não está sujeita a restrições de terceiros e, além disso, de que não haverá divisão de áreas internacionais para vendas, como já se deu com a indústria automobilística. Tais garantias não estão nem sequer mencionadas nem mesmo pela parte brasileira. Os Rafale têm componentes de fabricação ou de patente norte-americanas, os Gripen as têm de origem inglesa. Um e outro estão autorizados pelas indústrias e pelo governo dos Estados Unidos e da Inglaterra a transferir o domínio de seus produtos e até autorizar a serem vendidos, no futuro, pelo Brasil? Nada é dito a respeito, quer pelo Ministério da Defesa brasileiro, quer pelos três ofertantes dos aviões. Sabe-se, porém, que as restrições a componentes são frequentes, e comuns por parte dos Estados Unidos quando se trata de equipamento militar. A Embraer foi impedida de fechar valiosa venda de aviões Tucano à Venezuela pelos Estados Unidos, por haver componentes norte-americanos em seu avião. Os russos ganharam o negócio com seu admirado Sukhoi, já excluído da "concorrência" brasileira sob outro silêncio do Ministério da Defesa brasileiro. Sem a explicitada concordância dos fabricantes e detentores de patentes de todos os equipamentos dos aviões, o Brasil por certo terá problemas idênticos ao da Embraer. E talvez até de produção para uso próprio, a depender de circunstâncias políticas internacionais. Lula proclamou a aliança estratégica com a França (e Nelson Jobim toca os negócios com o estaleiro DCNS, a Odebrecht e a Dassault), com base só na sua "preferência" napoleônica, muito antes de haver tempo para a consideração das questões essenciais pela parte brasileira. O montante multibilionário da transação e seu projetado desdobramento, previsto para quatro vezes o gasto atual, dão ao país ao menos o direito de ser informado sobre as garantias dos negócios que se fazem à sua revelia.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0511200905.htm
Escrito por LBeraldo às 21h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Da FOLHA DE SÃO PAULO de hoje (27/10/2009)
JANIO DE FREITAS
A desordem das coisas Apesar da transgressão da lei eleitoral, a sem-cerimônia com que Mendes critica Lula não está na ordem das coisas
|
A DISPUTA verbal de Lula e Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, é uma confrontação de personalidades que se consideram cada qual detentora de poder maior que o da outra, na ordem institucional. Lula é o do "quem decide sou eu e mais ninguém". Gilmar Mendes é o do "eu sou o presidente de um dos Poderes", aquele Poder que julga e pode anular decisões dos outros dois. Mas a disputa reflete, sobretudo, a desordem em que anda a ordem, a ponto de tornar difícil caracterizar o regime político atual (mas não de hoje, propriamente). Ninguém esperaria que Lula confirmasse estar fazendo, nos incontáveis comícios e solenidades com a ministra Dilma Rousseff a reboque, a apresentação eleitoreira de sua (até agora) candidata presidencial. De nada valem, portanto, as suas negativas. A quantidade de atos em que a ministra está presente pelo país afora, sem razão para isso, tanto desmente Lula quanto a apelação ridícula da própria, de que as críticas a respeito provêm de discriminação por ser mulher. Apesar da transgressão das leis eleitorais, a sem-cerimônia com que o presidente do Supremo se põe a criticar a conduta de Lula, publicamente, não está na ordem das coisas. Começa por haver nisso um sentido político implícito, senão mesmo partidário. Além disso, é assunto passível de julgamentos pelo Supremo, sobre o qual o presidente do tribunal emite pré-voto. O que não é incomum na sedução microfônica e televisiva que mobiliza Gilmar Mendes, mas não está na ordem das coisas. O Legislativo, coitado (ou coitados de nós), está reduzido a uma secretaria abagunçada do Executivo. Lula o entope de medidas provisórias que contrariam as exigências constitucionais para sua emissão. Faz o próprio Congresso introduzir contrabandos nas medidas a serem votadas, depois dos congressistas terem decidido, várias vezes, proibir tal truque. Decide até o destino dos escândalos da Casa, ao determinar a conduta da "base aliada" diante deles. O Congresso está aberto, como queríamos, mas sua condição subalterna não está na ordem das coisas. Logo no seu segundo artigo, componente "Dos princípios fundamentais" do regime e da ordem institucional, a Constituição diz que "são Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário". O preceito não coincide com a realidade, em que o Legislativo perdeu para o Executivo a independência e o poder de iniciativa, o Executivo dispensa sem problemas a estrutura legal, e o Judiciário transborda seus limites ético-constitucionais e até legisla em matéria eleitoral, em matéria indígena e em matéria penal. Agora também não sei nem em que regime vivemos. E o que não sabia já muito era sufocante.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2710200904.htm
Escrito por LBeraldo às 20h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DO BLOG DO RICARDO NOBLAT
RICARDO NOBLAT - 22/10/2009 É espantosa a ignorância de Lula quanto à função da imprensa. "Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. O papel é informar", disse ele a Kennedy Alencar em entrevista publicada, hoje, na Folha de S. Paulo. E acrescentou: - Para ser fiscal, tem o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas. A imprensa tem de ser o grande órgão informador da opinião pública. Essa informação pode ser de elogios ao governo, de denúncias sobre o governo, de outros assuntos. A única que peço a Deus é que a imprensa informe da maneira mais isenta possível, e as posições políticas sejam colocadas nos editoriais. Como a imprensa pode ser "o grande orgão informador da opinião pública" se ela não examinar com atenção e rigor o comportamento e as decisões do governo? E como proceder assim sem que isso signifique "fiscalizar"? Perdoai-o, Senhor, ele não sabe o que diz! Uma vez, Lula admitiu que não gosta de notícia. Gosta de publicidade. Quis dizer: gosta de elogios, de críticas, não. Publicidade tem mais a ver com elogios. Jornalismo com críticas. Sem ignorar a publicidade que denigre, comum em campanhas eleitorais. E o jornalismo sabujo e de aluguel, comum em qualquer época. A entrevista de Lula à Folha será lembrada pela citação infeliz que ele fez de Jesus e Judas. - Quem vier para cá não montará governo fora da realidade política. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão. Jesus morreu porque não abriu mão do que pensava. Não se coligou com as autoridades romanas nem com os sacerdotes judeus. Quanto a esses, expulsou-os do templo. Sabia que seria traído por Judas. Não mexeu um dedinho para evitar que fosse. Vai ver que Lula perdeu essa aula. Perdeu muitas outras. http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/10/22/perdoai-pai-ele-nao-sabe-que-diz-234555.asp
Escrito por LBeraldo às 21h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (22/10/2009)
CLÓVIS ROSSI
Da metamorfose à rendição SÃO PAULO - Que Luiz Inácio Lula da Silva foi, a partir de sua vitória de 2002, uma "metamorfose ambulante", nem precisava que ele próprio o dissesse. Os fatos falavam alto e claro. O triste, como revela a entrevista que ele concedeu a Kennedy Alencar desta Folha, é que Lula passou da metamorfose à rendição a uma realidade política horrorosa. Disse Lula: "Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, ele não conseguirá montar o governo fora da realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico. Quem ganhar a Presidência amanhã, terá de fazer quase a mesma composição, porque este é o espectro político brasileiro". O presidente ainda acrescentou: "Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão". Se Frei Betto, o confessor ou ex-confessor de Lula, tivesse ensinado seu amigo direitinho, o presidente aprenderia que Cristo foi crucificado justamente porque não fez coalizão com os judas da vida. Que Lula tivesse obsessão com a governabilidade até dá para entender. Que desista de ao menos tentar reformar a "realidade política" é um irremediável desastre. Só para qualificar o que é essa realidade: a Fundação Konrad Adenauer, ligada à democracia-cristã alemã, divulgou há dez dias o índice de desenvolvimento político da América Latina. O Brasil consegue a proeza de ficar só no 8º lugar entre os 18 países listados. E estamos falando de América Latina, que é essa mixórdia arquiconhecida. Tudo somado, dá para entender por que o presidente prefere que a imprensa não fiscalize o poder, apenas informe. Lula e seu partido trocaram a fiscalização do tempo de oposição pelo gozo do poder uma vez nele instalados. crossi@uol.com.br
Escrito por LBeraldo às 12h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DO BLOG DO REINALDO AZEVEDO
segunda-feira, 19 de outubro de 2009 O helicóptero da polícia do Rio atingido por traficantes caiu, ironicamente, na chamada Vila Olímpica do Sampaio, antigo Clube do Sampaio, um local com estrutura e equipamentos dedicados aos esportes. Estamos em tempos de surpreender e assombrar o mundo, conforme reza a propaganda ufanista do ex(?)-MR-8 Franklin Martins. Podemos reivindicar a tropicalização dos esportes olímpicos, acrescentando Tiro ao Helicóptero e Inocente Atingido por Bala Encontrada — já que as perdidas são aquelas das quais nem ficamos sabendo. Há um pouco de amargo deboche nisso? É óbvio que sim. Contra o Rio? Ora! Por que ser modesto? Podem colocar logo aí: “Contra o Brasil” — nome de um livro de Diogo Mainardi. Esse Brasil que “eles” fazem e que têm feito por aí. Ou alguém seria contra o Brasil ideal? Eu não sou contra nem a Suíça ideal, entendem? Não, alguns não vão entender. A violência escancarada do Rio — nem é a cidade que mais mata no país; a mais violenta é Recife, capital de Pernambuco, um dos locais onde estaria em curso a revolução lulo-petista — é só um episódio na conta dos 50 mil homicídios que ocorrem por ano no Brasil. Na maioria das vezes, trata-se de pobre matando pobre — a pobreza que, tudo indica, está sendo oficialmente extinta pela propaganda. Nos tempos em que Marilena Chaui fazia suas rasantes teóricas pilotando a vassoura mais ligeira da filosofia brasileira, o ufanismo era certamente coisa da direita (leia Do Kotscho à Chaui, de Diogo). O Brasil experimenta agora a boçalidade do patriotismo de esquerda. Veio bater nas nossas praias, na versão stalinismo de mercado, com uns 50 anos de atraso… Podem-se encontrar dezenas de explicações para as cenas a que assistimos diariamente, mas a mais evidente e menos abordada é esta: miséria moral. O establishment político e econômico se acostumou a esta nossa “verdade”. Assisti a uma reportagem que contava os bastidores do filme oficial da candidatura do Brasil à Olimpíada de 2016. Muita gente deu seu testemunho. O de um publicitário-cineasta — não era Fernando Meirelles; não me lembro o nome; pouco importa — me encantou particularmente. Reproduzindo o que seria uma indagação da “turma do contra”, considerou: “Ficam perguntando por que a gente não falou da violência do Rio. Ora, Tóquio não falou dos seus terremotos, e Madri não falou dos atentados terroristas”. Entenderam? A bandidagem que faz refém 20% da população da cidade do Rio, que mora em favelas, é como os terremotos de Tóquio: um dado da natureza. Ou então é com um atentado terrorista da Al Qaeda — é coisa que não nos pertence. Não que um filme-propaganda devesse tratar das modalidades olímpicas nativas como Tiro a Helicóptero, mas o argumento é boçal e expressa uma certa má consciência segundo a qual a cidade é obrigada a conviver com isso. Há o Pão de Açúcar, as praias e os traficantes. E não custa lembrar. Tóquio usa a tecnologia contra os terremotos; Madri tomou medida adicionais de segurança contra o terror. O Brasil costuma levar a “cultura” da bandidagem dos morros para ser exaltada na televisão na forma de “produção do povo”. É por isso que os terremotos não matam em Tóquio, mas os bandidos matam milhares de pessoas no Brasil. O Japão odeia seus terremotos; nós adoramos os nossos marginais; nós adulamos as nossas catástrofes. Dá para resolver? Acho que dá, não é? Há um fato, não menos lastimável do que o narcotráfico, que evidencia que é, sim, possível alterar essa equação desde que exista uma política pública voltada para esse fim, que não se esgota no confronto da polícia com os bandidos, embora ele seja inevitável e necessário. Refiro-me às milícias. As milícias são mais uma evidência de que a segurança pública no Rio está doente — e não se enganem: existem justiceiros em outras cidades do país. É evidente que elas têm de ser combatidas. São também criminosas. Mas, curiosamente, estão a nos dizer que é balela essa história de que é impossível combater a bandidagem original. O que não pode, evidentemente, é combater o crime com outros crimes; ele tem de ser enfrentado é com a lei. O que estou evidenciando é que, se uma milícia consegue desalojar grupos pertencentes a facções do crime organizado, por que não conseguiria o Estado, que dispõe de mais recursos? Não consegue porque as políticas públicas de segurança, no Brasil, já foram infiltradas pela poetização do banditismo. Sei que muita gente chia nessas horas — “Lá vem você com isso! Mas que paranóia!”; falem à vontade; não ligo — , mas o fato é que todo o entendimento de segurança pública no país passa pelo filtro das esquerdas. E cabe constatar: elas são especialistas históricas em produzir violência, não em combatê-la. De fato, transformaram a violência em teoria política. Nem é preciso lembrar aqui que o crime organizado em comandos hierarquizados é produto da fusão da teoria de homicidas marxistas (em nome da história) com a prática de homicidas comuns (em nome da sua carteira). Ninguém entra no morro hoje sem pedir licença a uma miríade de ONGs e organizações que representam a tal “comunidade”. Começam convivendo com os “donos” do lugar e terminam como seus aliados e porta-vozes. O problema, reitero, é federal. Certas áreas do país não podem mais ficar por conta apenas das polícias estaduais. Mas a segurança pública, como se nota, não vira tema de campanha de jeito nenhum. Não podemos nos dar a esse luxo, não é? Vai que, enquanto tratamos disso, os piratas somalis roubem o petróleo do pré-sal com seus canudinhos mágicos. Aí o petralha cretino manda ver: “Rá, rá, rá, Lula tem 80% de popularidade e trouxe a Olimpíada”. E daí? Nem por isso o país deixa de produzir todo ano os seus 50 mil presuntos. Sem uma política de segurança na esfera federal que combata a bandidagem e recupere os pedaços de território do país que foram tomados pelo narcotráfico, isso não muda. No mínimo, para que se faça a Olimpíada em paz, será preciso chamar à mesa de negociação a parte que ainda não foi chamada: a bandidagem — a dos morros… O Estado brasileiro terá de celebrar um acordo com o Estado do Narcotráfico; acordo mesmo; coisa entre países, entenderam? Não será nenhuma novidade. Certa feita, o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, só conseguiu participar de uma solenidade em área dominada pelo tráfico depois de uma negociação. Como um ministro representa o presidente, era como se Lula tivesse negociando com o seu homólogo daquele outro país; algumas obras do PAC só são tocadas com autorização dos donos do pedaço. Vetei comentários de alguns leitores que afirmaram que o carioca tem uma cultura tolerante com o crime etc e tal. Queridos, neste blog, não existem cariocas, fluminenses, paulistanos, paulistas, mineiros. Nada me aborrece mais — porque acho burrice ou vigarice — esse negócio de “São Paulo gosta disso, Minas quer aquilo, o Rio reivindica aquilo outro…” Acho que São Paulo, Rio, Minas e o Brasil querem o que quer toda gente: viver em paz, de acordo com as leis democraticamente pactuadas. Vá ver se o trabalhador do Rio, morador das favelas, vê com bons olhos o mito da cultura do morro. Ele quer o que queremos todos: os filhos estudando em escolas decentes, tentando melhorar de vida. Quem transformou a população do morro num “outro ser”, numa espécie de extra-terrestre, que tem sua própria visão de mundo, não foram os “conservadores”; ao contrário, isso é obra dos “progressistas”, que os vêem com olhos de antropólogos tolerantes, que não querem interferir naquela “cultura”. De vez em quando, aqueles seres estranhos começam a trocar balas, e isso incomoda um pouco… Não! Isso não é “coisa de carioca”. Isso é fruto da irresponsabilidade do Poder Público e, no fundo, da impiedade transformada numa ética. Numa ética e num esporte. O verdadeiro esporte olímpico nativo tem sido o Tiro ao Homem. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-nosso-esporte-olimpico-e-matar/
Escrito por LBeraldo às 13h00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DO BLOG DO NOBLAT (17/10/2009)
Enviado por Ricardo Noblat - 17.10.2009
A crescente pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a diretoria da Vale torna cada vez mais claro seu projeto de poder. Não lhe basta chefiar o Executivo da maior democracia latino-americana. Ele quer presidir também a maior empresa privada do Brasil - e tantas quantas ele considere necessárias para a consumação de seus objetivos. À primeira vista, seu projeto parece conduzir a uma reestatização, com apoio de pelo menos alguns partidos aliados e também de sindicatos e movimentos ditos sociais, mas não é essa, neste momento, a questão mais importante. Muito mais do que à ampliação das funções e dos poderes do Estado, as ações do presidente Lula visam ao fortalecimento do seu governo e à centralização de um conjunto importante de decisões econômicas. Centralização, nesse caso, tem sentido literal: concentração de poder no principal gabinete do Palácio do Planalto. A tendência não é nova, mas ficou mais evidente a partir do agravamento da crise, quando o presidente Lula tentou intervir nas demissões da Embraer e da Vale. As pressões sobre a mineradora continuaram, depois, quando a empresa anunciou a redução temporária de seus investimentos. O presidente da República simplesmente cobrou explicações do chefe da empresa, como se estivesse tratando com um executivo sujeito a seu comando. O passo seguinte foi tentar obter o controle da empresa para demitir o presidente Roger Agnelli e determinar a pauta de investimentos. A tentativa só não deu certo, até agora, porque o Bradesco se recusou a vender as ações necessárias à formação de um novo bloco de controle. O jogo continua. Se der certo para o presidente, ele terá um estímulo a mais para intervir noutras empresas consideradas estratégicas. A interferência do presidente já é explícita na administração da Petrobrás. Bem antes de se anunciar a descoberta do pré-sal, Lula tentou forçar a estatal a comprar equipamentos pesados de fornecedores nacionais. O plano só não foi adiante, há alguns anos, porque os velhos estaleiros não tiveram condições de atender a empresa. Mas as pressões voltaram e a legislação proposta para o pré-sal transforma a Petrobrás em instrumento de política industrial. Manobra semelhante - e mais audaciosa - ocorreu quando o presidente criticou a Vale, recentemente, por encomendar navios a um estaleiro chinês. No caso da Petrobrás, a subordinação ao Planalto será completada com a criação de uma estatal para comandar a exploração do pré-sal. Esses fatos dão um novo sentido às investidas do governo, desde o início do primeiro mandato, contra a autonomia das agências de regulação, para sujeitá-las de forma irrestrita aos interesses políticos do Executivo. As agências foram concebidas para funcionar como órgãos de Estado, não de governo, mas o objetivo de Lula, obviamente, é fortalecer o governo, não o Estado. Se derem certo as tentativas de enfraquecer o Tribunal de Contas e de afrouxar a Lei de Responsabilidade Fiscal - objetivo permanente de muitos prefeitos e governadores -, o poder de arbítrio do Executivo Federal aumentará tremendamente e os avanços institucionais iniciados nos anos 90 irão para o ralo. Resta a pergunta: para quem o presidente Lula prepara essa configuração de poder? A resposta parece clara: para si mesmo. Se o seu sucessor for eleito por um partido de oposição, terá muita dificuldade para retomar a pauta de reformas inaugurada nos anos 90. Terá de enfrentar a resistência de um funcionalismo engordado e moldado segundo os interesses políticos do atual governo. Terá de enfrentar, além disso, a pressão de grupos articulados para movimentos de rua e para demonstrações de força. Para isso deverão servir o MST, sindicalistas cevados com dinheiro do contribuinte e a mais nova categoria de pelegos - dirigentes estudantis dispostos a declarar publicamente sua condição de estudantes profissionais sustentados pelo governo. A moldura perfeita para este quadro é o conjunto, em torno do Brasil, formado por governos com evidente vocação autoritária, todos apoiados pela atual diplomacia brasileira, francamente intervencionista. Não se trata só dos governos de Venezuela, Equador e Bolívia. A recém-aprovada legislação argentina de controle dos meios de comunicação combina com essa tendência, até agora defendida como perfeitamente democrática pelo presidente Lula e por seus assessores. É uma afinidade cada vez mais clara e mais preocupante.
Escrito por LBeraldo às 11h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DO BLOG DO RICARDO NOBLAT (15/10/2009)
Deu em O Estado de S. PauloDe Dora Kramer: Objetivamente: qual a necessidade de o presidente da República passar três dias vistoriando obras do projeto de transposição das águas do Rio São Francisco em quatro Estados, na companhia de uma vasta comitiva de ministros, entre eles a chefe da Casa Civil? Para uma vistoria, engenheiros dariam conta do recado. Para uma prestação de contas à sociedade com a finalidade de mostrar que as obras estão andando, há verbas (abundantes) de propaganda institucional. Mas, como o objetivo não é verificar coisa alguma e a publicidade pura e simples, no caso, não cumpre o objetivo, o presidente Luiz Inácio da Silva ocupa três dias úteis dos raros que tem passado no País com uma turnê de acampamentos e pronunciamentos de caráter pura e explicitamente eleitoral. Isso quando há problemas graves que mereceriam do presidente mais que referências ligeiras ou declarações de natureza político-partidária, ora em sentido de ataque, ora de defesa. Exemplos mais recentes: o cancelamento por fraude do Enem e o confisco temporário de parte da devolução do Imposto de Renda para cobrir gastos públicos contratados pela necessidade de sua excelência alimentar o mito do grande beneficiário da Nação, empreendedor ousado. Mas o que espanta já não é mais o que Lula faz. O que assusta é o que deixam que ele faça. E pelas piores razões: uns por oportunismo deslavado, outros por medo de um fantasma chamado popularidade, que assombra - mas, sobretudo, enfraquece - todo o País. Fato é que os Poderes, os partidos, os políticos, as instituições, as entidades organizadas, a sociedade estão todos intimidados, de cócoras ante um mito que se alimenta exatamente da covardia alheia de apontar o que está errado. Por receio de remar contra a corrente, mal percebendo que a corrente é formada justamente por força da intimidação geral, temor de ser enquadrado na categoria dos golpistas. Tomemos o partido de oposição que pretende voltar ao poder nas próximas eleições, o PSDB, pois ontem um dos postulantes à candidatura presidencial, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, manifestou-se com muita clareza a respeito dessa última e mais atrevida turnê eleitoral financiada com dinheiro do bolso de quem é partidário do presidente e de quem não é. "Acho que o presidente tem todo direito de viajar pelo País. Isso faz parte do jogo político. Eu não me preocupo com essas viagens. Acho que elas são legítimas, da mesma forma que nós, da oposição, de forma extremamente respeitosa, temos de ter nossa estratégia. Isso é a democracia", disse o governador, num momento de acentuado equívoco. Pelo seguinte: não se trata de a oposição se preocupar eleitoralmente ou não com as viagens de Lula. Inclusive porque a questão não são as viagens, mas a natureza eleitoral, partidária, portanto, e o fato de transgredirem a lei no que tange ao uso da máquina pública. A declaração do governador de Minas, sendo ele quem é no cenário político e em particular de seu partido, representa a voz do PSDB. Que, portanto, não apenas aceita que o dinheiro público seja usado pelo governante para financiamento de campanha como, ao achar tudo muito "natural e legítimo", confessa que faria (se já não faz) o mesmo. O governador de Minas, e de forma mais contida o de São Paulo, José Serra, acham que fazendo vista grossa a todo e qualquer tipo de transgressão estão sendo politicamente espertos, quando apenas fogem de suas responsabilidades como homens públicos que se pretendem "íntegros", conforme pregou outro dia o governador Serra. Não contestam coisa alguma, coonestam e assim vão amaciando, "respeitosamente", o caminho rumo ao Palácio do Planalto. Pode até ser que a estratégia dê certo sob o ponto de vista eleitoral da oposição. Mas é um desserviço à democracia, que, ao contrário do que parece pensar o governador Aécio, não significa liberdade para transgredir, mas respeito ao direito - e ao dinheiro - de todos. http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/10/15/uma-nacao-de-cocoras-232299.asp
Escrito por LBeraldo às 21h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DO BLOG DO REINANLDO AZEVEDO
domingo, 11 de outubro de 2009 Poucos se lembram de que o Lula caroável, afável, bonachão, esconde uma personalidade política vingativa, que não esquece jamais um desafeto. Pode fazer as pazes? Pode! Mas ele só aceita a paz do fraco — isto é, o “arrependido” precisa beijar a sua mão e não aspirar a mais nada a não ser à subordinação a seu projeto político. Foi assim que esmagou no passado lideranças de seu próprio partido. Geraldo Alckmin (PSDB), que disputou com ele a Presidência em 2006, mereceu a alcunha, imaginem!, de “troglodita”. O seu pecado? Disse que Lula estava errado em algumas coisas. Quem está na mira é Roger Agnelli, presidente da Vale. E o instrumento da vendeta é o reluzente e coruscante Eike Batista, que saiu da coleira de Luma de Oliveira para entrar na história. Todos conhecem o enredo. Os petistas sempre quiseram meter a mão grande na Vale para, sem trocadilho, valer. Embora o partido, por intermédio dos fundos de pensão, influam na companhia — e, portanto, a gigante da mineração é apenas mais ou menos privada —, a idéia sempre foi dar as cartas por lá. A “marolinha” indispôs Agnelli com Lula e com o PT. O presidente considera que ele não foi “PTtriota” o bastante ao demitir funcionários e cortar investimentos — atendendo, vejam que absurdo!, às necessidades da companhia. Reacendeu-se o velho desejo. E o que era uma vaga intenção virou um plano. E o projeto está na rua. Eike Batista ocupa hoje generoso espaço nos dois principais jornais de São Paulo. Na Folha, na forma de um perfil-entrevista, com um pé em Caras e outro no jornalismo de negócios e um pouco de astrologia. No Estadão, numa entrevista convencional. Como se vê, entrevistados e entrevistadores não deram nem exigiram exclusividade. É a Operação-Vale em ação. Ao Estadão, Eike até diz quem é seu candidato a presidir a mineradora: Sérgio Rosa, presidente da Previ — o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil. O mesmo Rosa que foi aliado do petismo na luta de foice que se travou, a partir de determinado momento, entre Daniel Dantas e o partido — ou grande parcela dele — pelo controle da Brasil Telecom. O banqueiro acabou, no fim da história, levando uma bolada. Mas teve de cair fora da empresa. O PT conseguiu criar uma espécie de “ente” que gerencia o capitalismo brasileiro. O partido tem hoje o domínio do estado, dos bancos públicos e dos fundos de pensão e vê o setor privado como mero instrumento de suas demandas. Mesmo que perca as eleições no ano que vem, seu poder continuará gigantesco. Os setores do empresariado que se aproximaram do lulo-petismo sonhando mudar a sua natureza estão percebendo que foram essencialmente inocentes — para não dizer estúpidos. É evidente que o PT não é socialista ao velho estilo — aquele socialismo que morreu com a União Soviética. O que não quer dizer que não seja autoritário. Os petistas entendem o seu partido como o ente que substitui a sociedade e os controles formais do estado democrático. Seu horizonte político e moral é a ditadura dos virtuosos — eles se acham virtuosos… Segue um trecho da entrevista de Eike Batista ao Estadão. Não sei se Agnelli cai. Se cair, que os empresários se preparem. A depender do futuro, ele é só primeiro. Eike é, assim, o instrumento da tentação chinesa do PT. Que se registre: um empresário anunciar a investida para comprar participação numa empresa, repetindo rigorosamente o discurso do presidente da República e já declarando qual é seu candidato a presidir a companhia — não por acaso, um homem do PT —, é coisa obviamente inédita na história do Brasil e, acredito, na do capitalismo. Nunca antes nestepaiz ou nestemundo… * Por Irany Tereza e David Friedlander: Depois de meses fugindo do assunto e de muitas respostas genéricas, o empresário Eike Batista finalmente revela detalhes de seu interesse pela Vale, a maior produtora de minério de ferro do mundo. Disse que pode voltar a negociar com o Bradesco, mas no momento está de olho na compra de um lote das ações que a Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) tem na mineradora. “É pequeno, mas, para sentar ali no conselho e direcionar, acho fantástico”, afirmou ao Estado e à AE Broadcast, na sexta-feira. Com um discurso igual ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Eike criticou a administração da Vale por investir fora do País e disse que gostaria de ter Sérgio Rosa, presidente da Previ, no lugar de Roger Agnelli, atual presidente da Vale. “Honestamente, por mim, comprar uma participação, ter o Sérgio Rosa (presidente da Previ) administrando essa companhia, com a gente podendo dar um input do que fazer (participar da gestão estratégica) já está de bom tamanho. É ajudar o Brasil”, afirma. A seguir, a entrevista. O sr. acha que vai conseguir comprar um pedaço da Vale? A Vale é o sonho de qualquer minerador. Ela poderia fazer investimentos para agregar valor aos produtos que exporta. E pode também ser um instrumento para dar eficiência à logística do País. Olhando de fora, enxergo na Vale diamantes não polidos a rodo. Como foi a negociação para comprar a participação do Bradesco na Vale? Foi uma conversa, não houve um proposta firme, por escrito. Foi só conceito, tipo eu tô aqui!. Houve a conversa e a resposta de volta (o Bradesco não quis vender). Não houve uma proposta? Olha, nosso interesse é falar o menos possível. Apenas dizer que existe o interesse estratégico, sim. A gente acha que agregaria valor ao ativo, que seria bom para o Estado, para os fundos de pensão, que são os maiores acionistas, porque a gente sabe criar valor. Honestamente, por mim, comprar uma participação, ter o Sérgio Rosa (presidente da Previ) administrando essa companhia, com a gente podendo dar um input do que fazer (participar da gestão estratégica) já está de bom tamanho. É ajudar o Brasil. Essa é a intenção? Ter o Sérgio Rosa no comando? Sim. Estou falando em tese. Nas suas empresas, o sr. tem o controle. Aceitaria entrar entrar numa empresa onde o controle está nas mãos dos outros? Quando a gente conversa com autoridades, eu sempre digo assim: é para usar o chapéu de empresário que quer ganhar dinheiro ou do empresário que pensa no Brasil? Aqui a gente estaria pensando no Brasil, participando da gestão. Enxergaram isso aqui? Viram aquilo lá? Poder avaliar quando chegar uma proposta para comprar alguma coisa. Aqui http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/eike-batista-apareceu-o-pttriota-bilionario-para-tentar-tomar-a-vale-e-o-pt-e-sua-tentacao-chinesa/
Escrito por LBeraldo às 22h14
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (07/10/2009)
MARCELO COELHO
Inocências de classe média Tudo o que se diz a respeito de direitos humanos dos presos caiu em descrédito para a maioria da população
|
UMA DAS ironias da Rio-2016 é que nosso filme promocional em Copenhague foi feito pelo cineasta Fernando Meirelles. Trata-se de um talento e tanto, e seu trabalho deve ter contribuído para a decisão do Comitê Olímpico. Sou do tempo em que as salas de projeção, de vez em quando, trocavam os rolos dos filmes. Felizmente, com as técnicas digitais, isso deixou de acontecer. Porque fico imaginando se, por equívoco, tivessem projetado cenas do premiado "Cidade de Deus", do mesmo Meirelles, em vez de uma produção simpática à Cidade Maravilhosa. Mas não quero ser espírito de porco (pelo menos não completamente). Os tempos são outros. A euforia em torno da Olimpíada já leva algumas pessoas a acreditarem que até o problema das favelas estará resolvido em 2016. É mais um capítulo do fenômeno que comentei na semana passada. Hasteamento de bandeira nas escolas, pré-sal, Brasil no G-20, Olimpíada no Rio: em meio a tantas manifestações de entusiasmo, gostei de ter assistido ao filme "Salve Geral", de Sérgio Rezende. O tema, antes que me acusem de bairrismo, são os ataques do PCC em São Paulo, em 2006. Como em outros filmes brasileiros do gênero ("Tropa de Elite" e o próprio "Cidade de Deus"), houve quem visse em "Salve Geral" muita espetacularização da violência, quando não alguma velada apologia do crime organizado. Minha tendência é sempre discordar desse tipo de críticas. Qualquer tentativa cinematográfica de retratar essa realidade está obrigada a dar um mínimo de razões, de motivos, para que os personagens façam o que fazem. E, diga-se de passagem, "Salve Geral" é bem menos violento do que seus congêneres. Claro que alguns chefões do "Partido", como eles dizem, entoam um discurso a favor da paz e dos direitos humanos, reclamando, com toda a razão, de um sistema prisional que, em boa medida, se assemelha aos campos de concentração nazistas. Mas nenhum espectador, vendo a cara daqueles facínoras, há de tomar esse discurso pelo valor de face. O que incomoda é justamente isso. Tudo o que se diz a respeito de direitos humanos dos presos caiu em descrédito para a vasta maioria da população brasileira. A fraseologia, deixada ao deus-dará, terminou sendo objeto de apropriação por parte do crime organizado; e seu valor real não é nem maior nem menor do que quando utilizada por muitas autoridades constituídas. Não, o problema de "Salve Geral" não é fazer a apologia do PCC; talvez seja, na verdade, o de fazer uma apologia da classe média. Andréa Beltrão é uma professora de piano cuja situação financeira vai de mal a pior. Seu filho, um bocado bestalhão, termina preso e se envolve com o PCC. Aos poucos, a mãe entra em contato com uma advogada (Denise Weinberg) que centraliza em seu escritório rebeliões de presos, tráfico de drogas nas prisões, sentenças compradas na Justiça. É esta personagem, chamada de Ruiva, o verdadeiro eixo da narração do filme. O problema de "Salve Geral" é que, por razões compreensíveis, Sergio Rezende quis conquistar a empatia do espectador, criando uma professora de classe média para facilitar nossa identificação emocional com a trama. O filme seria melhor se não procurasse criar nenhuma identificação. Pois a situação da mãe-protagonista acaba girando em falso. Tem de ser passiva diante dos acontecimentos, para que aceitemos o pressuposto de sua inocência, de sua neutralidade ética. Só que, com isso, torna-se uma personagem sensata demais para as encrencas em que se mete. Uma mãe verdadeiramente enlouquecida e descompensada seria mais convincente, mas poderia perder a simpatia da plateia. Mas a realidade mostrada pelo filme é de tal ordem que não é possível ao espectador identificar-se com ninguém. Tanto que a melhor personagem, a mais interessante, a mais dotada de autonomia, é a antipática e perigosa advogada vivida por Denise Weinberg. Mas talvez eu esteja completamente errado nessa crítica. A protagonista meio apatetada do filme não está ali para despertar nossa empatia: está precisamente no lugar incômodo, quase inexistente, que corresponde à classe média na vida real. Vê a conflagração e o crime à sua volta e não tem certeza de nada. Não é que deixe de agir: age passivamente, a exemplo de qualquer um de nós, esperando que tudo possa se acertar um dia. Talvez em 2016, por que não? coelhofsp@uol.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0710200918.htm
Escrito por LBeraldo às 09h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
PUBBLICADO ORIGINALMENTE NA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE (04/10/2009)
Deu na Folha de S. PauloDe Janio de Freitas: Achar que o Brasil "conquistou cidadania no mundo" porque sediará uma Olimpíada daqui a sete anos não é só uma elaboração mental estapafúrdia, que por si não causaria espanto, é uma demonstração de que Lula não tem noção do que seu governo faz, nem do seu próprio fazer na Presidência. Com alguns erros menores e inevitáveis, porque na ação política a linha reta é quase inexistente, a verdade é que o governo Lula deu ao Brasil uma projeção na política internacional que o país jamais tivera. Nem a participação da FEB e de um bravo grupo de aviação de caça é lembrada nas histórias da Segunda Guerra, nem ao chegar à dimensão de oitava economia mundial o Brasil se tornara mais considerado nas formulações internacionais. Auxiliado pelo equívoco dos países desenvolvidos que o supõem um operário autêntico e reformador do Brasil, fantasia da embasbacada imprensa europeia e norte-americana, Lula teve o mérito de operar uma confusa identificação do seu exacerbado personalismo com o país. E estendeu de um ao outro atenções e benevolências que abriram portas e presença em centros de decisão. Dá uma ideia dessa fusão inovadora, e do seu processo, a comparação com o personalismo de Fernando Henrique, não menos exacerbado, mas que confinou seus objetivos aos limites pessoais dos títulos, condecorações e outras projeções individuais. A ação externa do governo Lula é parte de um contraste agudo. Lula produz nas relações internacionais um passo primordial e extenso de descolonização do Brasil. No plano interno, porém, a política econômica e suas projeções sociais preservam o colonialismo ante essa espécie de metrópole mundial que são os capitais internacionais combinados, com suas ramificações internas completando o sistema colonizante. Ainda estamos por saber se tal contraste é uma contradição, decorrente do conservadorismo de Lula, ou se é como um habeas corpus -provavelmente parte das propostas de José Dirceu no planejamento do governo Lula- para tornar aceita a política externa e, em especial, sua realçada face latino-americana. Sob críticas internas muito azedas, capazes de ver no erro de uma indicação para a Unesco uma condenação de toda a política externa, é no entanto inegável que o Brasil chegou a uma expressão internacional que não depende da safra de soja e dos êxitos da Vale. E não foi a concessão da Olimpíada que lhe trouxe a nova condição. Lula, pelo visto, não sabe, mas foi o contrário, a "cidadania no mundo" já conquistada é que levou o Brasil a obter a Olimpíada. Com a ajuda, isso Lula sabe, de caríssimo marketing e outros recursos menos citáveis.
Escrito por LBeraldo às 20h25
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DO BLOG DO JUIZ MAIEROVITCH
24 de setembro de 2009. Atenção leitor. Caso tenha se utilizado da ponte-aérea Amsterdã-Valência, operada pelo consórcio KLM-Air France-Transavia, o piloto pode ter sido o argentino Julio Alberto Poch, aquele dos vôos assassinos. Poch era o piloto dos vôos destinados a jogar no oceano Atlântico ou no rio da Prata, sem pára-quedas, presos políticos da ditadura argentina (1976 a 1983). Pelos cálculos do juiz argentino Sergio Torres foram mais de mil presos políticos atirados de aviões pilotados por Poch. Segundo dizia Poch, com a insensibilidade moral de um psicopata, todos esses “terroristas de esquerda” tinham sido dopados antes de ingressarem no avião e, assim, “não sentiam nada”. Poch deixou a marinha da Argentina em 1981. Com o título de capitão de fragata, fixou residência na Holanda e passou a trabalhar como piloto de aviões. Imaginava, pelo decurso do tempo, que tinham esquecido dele e o som das “madres de Plaza de Mayo” não ecoavam em Amsterdã. Num trabalho do juiz federal argentino Sergio Torres, encarregado dos processos sobre pessoas desaparecidas durante a ditadura militar, muitas testemunhas contaram sobre os chamados “vôos da morte”, em aviões pilotados por Julio Alberto Poch. No curso dos processos, o juiz Sergio Torres descobriu que Poch, hoje com 57 anos, vivia em Amsterdã e trabalhava como piloto de aviões. Na terça feira passada, em cumprimento a mandado internacional de prisão expedido pela Justiça argentina, Poch foi preso a bordo de um “low-cost”, no aeroporto de Valência (Espanha). O vôo atrasou cerca de duas horas para decolar, tempo levado para a substituição de Poch por outro piloto. Hoje, chegou ao cárcere de Picassent, em Valência, onde está encarcerado Poch, a nota da expedição de pedido de extradição pela Argentina. PANO RÁPIDO. Na Argentina, foram declaradas inconstitucionais as leis de anistia, Ponto Final e Obediência Devida, que conferiram impunidade a cerca de 1.800 militares envolvidos com torturas e assassinatos, durante a ditadura. Enquanto o juiz argentino Sergio Torres processa assassinos da ditadura militar argentina, no Brasil, aguarda-se a chegada de José António Toffoli para assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Toffoli, como Advogado Geral da União, sustentou tese que beneficiou o coronel Brilhante Ustra. O referido coronel Ustra comandou o DOI-CODI, onde eram torturados e desapareciam presos políticos. No Brasil, a lei de anistia foi feita pelo regime militar. Ela, ao contrário do entendimento de Toffoli, não se aplica aos casos de terrorismo de Estado, que foi o que tivemos no Brasil, durante a ditadura. –Wálter Fanganiello Maierovitch– http://maierovitch.blog.terra.com.br/
Escrito por LBeraldo às 23h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DO BLOG DO REINALDO AZEVEDO
quinta-feira, 24 de setembro de 2009 | 6:41 Há pontos sobre os quais já não resta a menor dúvida. Lembro-os apenas para que não se perca no dia-a-dia a memória do escândalo. O ponto deste artigo, no entanto, é outro. Falarei aqui de uma imprensa - a chamada “grande imprensa” - que vive sob patrulha e que passou a ter medo de pensar. Se preciso, ela vai contra os fatos para que não seja considerada “conservadora”, “reacionária” e “golpista”. Já chego lá. Antes, ao que é dado. - O retorno de Manuel Zelaya a Honduras foi pensado para coincidir com a presença de Lula em Nova York. O que, por si, já seria notícia ampliou-se enormemente. Lula tratou do caso em seu discurso; - Lula usa, de forma miserável, a tragédia de um pequeno e pobre país para robustecer a própria mitologia; - em entrevista à Rádio Jovem Pan, Zelaya confirmou que conversou previamente com Lula e Amorim; - Os presidentes Lula, Daniel Ortega (Nicarágua), Maurício Funes (El Salvador) e Hugo Chávez, que desapareceu do noticiário (?), articularam a ação; - se Zelaya não é um asilado na embaixada brasileira, como diz Celso Amorim, então está usando a representação brasileira para insuflar a insurreição, o que viola uma penca de tratados internacionais; - Lula não hesitou em usar o pobre povo hondurenho como massa de manobra ou bucha de canhão de seus sonhos megalômanos; - É mentira - grotesca, estúpida, deslavada - que Zelaya tenha sido deposto por um golpe. Artigo que circula por aí e que me foi enviado por leitores sustentando que a Constituição hondurenha foi violada pelo governo Micheletti sai da pena de um delinqüente de aluguel. O mesmo delinqüente garante, por exemplo, que o mensalão nunca existiu; - Já demonstrei aqui, por A + B, que a Zelaya é que violou a Constituição; a rigor, quando deixou Honduras, nem era mais presidente. A Carta prevê destituição automática para quem faz o que ele fez; - jornais e TVs ignoram o que é FATO, não o que é GOSTO: golpista era Zelaya, que deu uma ordem ao Exército contra decisão da Suprema Corte do país; - Lula mancha com sangue hondurenho a sua reputação de grande líder internacional - ainda mais asqueroso: alimenta-se desse sangue. Tudo isso está dado. No arquivo vocês acham os artigos da Constituição que Zelaya violou. Agora vou comentar um pouco o transe em que a maior parte da imprensa brasileira está mergulhada. Não! Não é assim em todo o mundo, não. Tratei aqui de um editorial do Wall Street Journal que coloca as coisas em seus devidos termos. Escrevi ontem um texto afirmando, de forma um tanto irônica, que o chavismo havia chegado ao andar dos editoriais do Estadão. Agora, trato de um editorial da Folha. O jornal, vocês verão, percebeu que algo de errado se dá na embaixada brasileira. Mas recua diante do óbvio e recorre a uma mentira - ou desinformação - para ancorar seu ponto de vista. Trechos do editorial em vermelho. Sigo nas pretinhas. A suspensão imediata do cerco [à embaixada do Brasil] acrescenta mais um item relevante ao conjunto de condições apresentadas pela comunidade internacional para superar-se o isolamento em que se encontra o atual governo hondurenho. As forças golpistas, entretanto, resistem a qualquer concessão. O governo Micheletti rejeitou a proposta de acordo apresentada por Oscar Arias, presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz, que previa a volta de Zelaya ao poder, num governo de conciliação nacional, com anistia a todos os envolvidos na crise. Esse continua sendo o melhor caminho para superá-la. Todavia, não são as resistências do atual governo o único fator de agravamento da situação. Nada é unívoco no quadro hondurenho, e as atitudes de Zelaya não correspondem em absoluto ao papel de mártir da democracia que lhe tem sido atribuído. Não se esqueçam de que o jornal se refere ao governo Micheletti como “forças golpistas”. Já volto aqui. Observem que a Folha repete uma mentira que está em toda a parte: a história de que o governo provisório rejeitou o Plano Arias. Quem deu as negociações por encerradas foi o grupo de Manuel Zelaya. Basta consultar os jornais hondurenhos. O chamado Acordo de San José tinha um prazo estendido. No seu curso, Zelaya pôs fim à negociação e combinou com Chávez a sua volta - então malsucedida - a Honduras. Mas a Folha reconhece, que bom!, que ele não é um mártir da democracia. Vamos ver. Zelaya tentou aplicar, contra uma cláusula pétrea da Constituição de seu país, o modelo chavista da permanência no poder, viabilizada por plebiscito popular. Naquela altura, já estava em curso a campanha para a sucessão presidencial -em que seu candidato tinha poucas chances de vencer. A tentativa de tumultuar o processo democrático -vale dizer, de golpe plebiscitário- foi condenada pelo Congresso e barrada na Corte Suprema. Roberto Micheletti, presidente do Congresso, assumiu conforme a linha sucessória estabelecida pela Constituição -já que o vice-presidente havia renunciado para concorrer nas eleições, marcadas para 29 de novembro. A Folha reconhece, então, que Zelaya tentou a via bolivariana do golpe plebiscitário, condenado pelo Congresso e BARRADO pela Corte Suprema. Faltou o jornal lembrar neste ponto que, mesmo depois de o plebiscito ter sido declarado ilegal, o então presidente deu ordens para que fosse realizado e mobilizou para tanto o Exército. O JORNAL E MUITA GENTE NÃO SE DÃO CONTA DE QUE AQUELA ORDEM JÁ ERA O GOLPE. Se os militares vão às ruas contra a Constituição e a Justiça, o que temos? Mas feliz fiquei mesmo quando a Folha escreveu: “Roberto Micheletti, presidente do Congresso, assumiu conforme a linha sucessória estabelecida pela Constituição”. É MESMO? É MESMO! Assumiu segundo a linha sucessória estabelecida pela Constituição. Então não é golpe coisa nenhuma! Mas aí vem a patrulha: “Ih, vão chamar o jornal de golpista!” Vejam o que vem em seguida: Foi o ato abusivo de expulsar Zelaya do país, “manu militari”, que configurou a ilegitimidade do atual governo. A partir de então, o justificado repúdio internacional ao golpe propiciou a Zelaya ocasiões para exercer, como nunca, o aventureirismo tumultuário que culmina em seu peculiar “asilo” na embaixada brasileira. Deixem-me ver se entendi bem. Zelaya tentou dar um golpe plebiscitário, mas sua ação foi “barrada” - isto é, ele caiu, perdeu o cargo (segundo a lei). E, diz o jornal, Micheletti assumiu segundo a previsão constitucional. Estamos diante de uma inovação jurídica formidável: mesmo não sendo mais presidente, o golpe acontece quando Zelaya é tirado do país! Ora, ninguém podia surrupiar de Zelaya o que o próprio jornal admite que ele já não tinha. Ora, se ele foi mesmo tirado do país à força, isso até pode ser ilegal, criminoso, o diabo a quatro, mas golpe não é. E, como se nota, o que era uma sucessão constitucional virou golpe de novo. Que a imprensa esteja infiltrada de simpatizantes do bolivarianismo - mais por ignorância do que por ideologia -, disso não duvido. Mas reúne também muita gente sensata que está com medo de pensar; que se obriga a torcer os fatos para repetir o mantra: “golpe, golpistas…” Chamar Zelaya de presidente constitucional é, então, uma acinte. Lula, com efeito, é “o Cara”. É o cara que fez correr sangue em Tegucigalpa. Com o apoio de boa parte da imprensa brasileira. Depois de ter feito o seu discurso na ONU - aquele em que pediu a reinstalação de Zelaya no poder e o fim do embargo à tirania cubana -, Lula se encontrou e se deixou fotografar com Ahmadinejad, presidente do Irã. Fica para o próximo post. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/
Escrito por LBeraldo às 23h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |